Imprimir
Categoria: Opinião & Análise
Visualizações: 534

Dialogando: Que maldito vírus da Covid-19? (Mouzinho de Albuquerque)

 

ESTAMOS num momento em que o luto é quase generalizado na terra devido a um vírus que actua sem piedade. O bicho obrigou-nos a viver sem proximidade social, a muita lavagem das mãos, ao uso de máscaras, vénia à despedida ou toque nos pés. Isto é, estamos a tentar ou aprender a lidar com ele. Mesmo assim é visível o cenário dramático por ele criado em alguns países.

O mundo chora inconsolável pela morte massiva dos seus habitantes por esta pandemia da Covid-19, cujos prognósticos sobre as suas consequências nas áreas económica e social também são alarmantes, prevendo-se situações catastróficas e devastadoras. Por isso os países do mundo se viram na contingência de adoptar medidas restritivas, num firme esforço de combater o vírus que parece estar a actuar sem piedade.

Aliás, todos os dias somos dados a ver incrédulos e com os rostos lacrimosos, nos noticiários das televisões do mundo, o solo aberto de cemitérios, as campas em série, qual macabra dentadura de Tánatos, esperando devorar os mortos. O vírus do novo coronavírus está a criar situações inusitadas, entre as quais as mortes sem a realização de habituais funerais. E o que urge perguntar é como é possível ficarmos à margem de um ritual de passagem tão ancestral, exclusivamente humano?

Do que se sabe é que na natureza, nenhum outro ser chora os seus mortos e os reverencia na sepultura. Todos os povos da terra ritualizam e sempre ritualizaram a despedida eterna dos seus entes mortos. Os rituais têm valor simbólico, expressam em liturgias o que não conseguimos dizer em palavras nos momentos tão tristes, como este em que vivemos.

É profundo e absolutamente triste que agora, um maldito vírus nos roube tudo isso que traduz laços de parentesco e amizade: visitar ao doente, consolá-lo e animá-lo, preparar o corpo para o funeral, organizar o velório, cumprir os rituais de enterro ou cremação, ver o caixão a descer para a cova, orar juntos pelo defunto, manifestar condolências de várias formas ou através de canções fúnebres e abraçar os mais afectados pela perda. Banalizada pela fúria da pandemia, a morte descartável agride a nossa dignidade humana.

Na verdade, são macabras e profundamente chocantes as cenas de milhares de cadáveres recolhidos e transportados em camiões, nalguns casos frigoríficos e de sepultadores vestidos como astronautas. Maldito vírus da Covid-19, não merecemos e nunca mereceríamos jamais igual tratamento, por isso, imploramos que pare já com a sua fúria arrasadora!

Maldita Covid-19, as imagens são lúgubres demais: corpos previamente empacotados e lançados nas tumbas sem identificação, embora os seus seres queridos observem horrorizados à distância, impedidos de aproximar-se para dar o último adeus, imobilizados pela força necrófila de Hades, o deus do reino dos mortos, mas que não escondem a dor da perda de um familiar ou vizinho, por sua culpa.

As reticências que se manifestam perante ou frente às vítimas da pandemia não é por menosprezo, senão para salvar vidas, a nossa e dos demais. Com isso, se preserva um princípio ético maior. Sublinhando, deixa-se de se fazer um bem, os ritos fúnebres, para preservar um bem maior, que é, como está dito, a vida. Por isso, a prevenção da propagação do vírus é a melhor arma para enfrentá-lo, até o tempo que for necessário, claro, observando todas as medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Contudo, acreditamos que todas as lições que estamos a aprender da malvada Covid-19, serão válidas para a reflexão profunda que possamos fazer daqui em diante, sobre o que queremos ser em vários aspectos, enquanto seres humanos que estamos “embrulhados” num planeta que também depende dos poderes celestiais e da natureza.