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Categoria: Opinião & Análise
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Retalhos e Farrapos: É tão sujo (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

OLHOU para o seu reflexo na pia, o moph desliza no chão de tijoleira, borrifou o produto químico no espelho, viu a sua imagem embaciada, gargalhou, sentiu-se mais forte, sentou na sanita, deixou cair algumas pérolas, olhou com dedicação, sentiu a essência da sua alma, baixou o autoclismo, voltou a limpar com prazer e continuou a sua rotina.

Entrou no escritório, limpou a secretária de Ludovico com atenção, mostrou afecto, organizou os papéis, limpou omouse, os teclados, o monitor, o pc e depois sentou na cadeira do trabalhador mais bem falado da empresa nos últimos quatro meses. Sentiu que tinha óculos de licenciado, com média 17, fingiu estar a terminar um relatório financeiro, tirou o celular e disse:

“Boss, já terminei o relatório, estou disponível para ajudar outros colegas a terminar a tarefa, pois sei que somos uma equipa e o nosso desempenho é analisado nestes moldes”.

Saiu da cadeira, continuou a limpeza, terminou as tarefas em duas horas. Entrou na sua salinha, tomou café, mordeu o pão, sentiu o óleo das badjias a transbordar dos seus lábios. Fechou os olhos e sentiu uma paz interior súbita, que lhe fez pegar num sono imediato. Acordou, viu Laurinda a balancear o seu corpo e apalpou-a. Recebeu os insultos da trabalhadora mais desejada do sector com agrado, incitou-lhe saber que excita tais sentimentos na miúda de 21 anos.

“Laurinda ainda vais rastejar por mim e eu vou colocar-te na mesa”, disse num tom de raiva, provocado por uma das palavras da colega que estava farta de ser apalpada por aquelas mãos casadas, pais de cinco filhos.

Tirou o uniforme, passou do escritório para certificar que a cadeira de Ludovico não estava ocupada. E não estava mesmo, o jovem foi demitido por justa causa, tem o curriculum sujo e dificilmente terá novo emprego.

Entrou no transporte sorridente, a alegria conversou consigo até chegar à casa, comeu o jantar com ela, satisfez a mulher, como há tempos não o fazia. Enquanto sentia o suor da sua parceira a passear no seu corpo, recordou do Ludovico com carinho. Esboçou um sorriso, recordou da conversa que teve com o jovem quando estava para ser promovido.

- Tenho que terminar este relatório. Tudo está no flash. Até amanhã terei tudo finalizado, não durmo hoje antes de terminar as minhas tarefas, estou há três semanas nisso.

- Mas este relatório é tão difícil de fazer?

- Jorge, não sabes quão é pesado. Mas já está no final. Ontem estive no RH e serei promovido, o relatório é o passaporte para a minha promoção. Até já me despedi de todos do sector.

- Espero que termine o relatório, mereces a promoção. Trabalhas muito e és muito inteligente.

Depois de remexer nas lembranças, Jorge recordou da quarta-feira da semana passada, viu o flash, que foi esquecido por Ludovico, a navegar no seu baldinho de limpeza. Levou o objecto tecnológico e fez secar, meteu na coluna de bluetooth e esboçou um sorriso por saber que não funciona. Voltou ao escritório, meteu o flash no computador de Ludovico e continuou a trabalhar.

Quando eram 15 horas, conversou com o trabalhador mais dedicado da empresa, abraçou, deu-lhe conselhos maduros e mostrou que o mundo é porco. “Mas não tens o relatório em outros locais?”, questionou Jorge e Ludovico respondeu que não e que a sua situação na empresa estava por um fio. “Obrigado senhor Jorge. Nesta empresa todos me tratam mal menos o senhor. É como um pai para mim, nem sei como agradecer a sua consideração por mim. Eu falo com poucos aqui e me sinto confortável partilhando as coisas com o senhor”, disse o jovem de óculos. 

Hoje, uma semana depois do sucedido, Jorge tem a certeza que o mundo é sujo, “estou há 7 anos na empresa e nunca fui promovido. Odeio estes porcos”.