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Categoria: Opinião & Análise
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DE VEZ EM QUANDO: “La famba bicha” (Alfredo Macaringue)

 

JEREMIAS Ngwenha, quando vestiu aquele uniforme camuflado das Forças Armadas e foi ao palco cantar e dançar, com certeza não sabia que estava acendendo fogo para atiçar as massas. Ou melhor, o seu objectivo era mesmo de levar o povo ao delírio. E por aquilo que se viu durante e depois da primeira actuação, não temos dúvidas em afirmar que o músico conquistou um lugar privilegiado na galeria dos artistas nacionais.

Não demorou que o povo inteiro, incluindo os que não falam, nem entendem nada do Xichangane, começassem a repetir o verso principal da letra: “La famba bicha, a lifambi” (a bicha anda ou não anda?). Era o grito de socorro de um homem que lutava pela justiça social, que todos nós almejamos, e que ainda acreditamos que um dia a alcançaremos.

Ngwenha entrou como um furacão. Arrastou a todos, e há empresários que fizeram dinheiro à custa dele, e milhões de pessoas que encheram o coração com uma música que toca fundo. Mas o que mais terá ficado na memória colectiva é, sem dúvida, a coreografia dinâmica que não deixava ninguém indiferente. O músico e seus companheiros enchiam o palco com a dança, contagiando os que assistiam, os quais também passavam a dançar para acompanhar o seu ídolo.

Jeremias Ngwenha nascera em Março de 1972 e morreu em Maio de 2007. Hoje recordei-me que ninguém se lembrou de dirigir uma palavra em sua memória no dia da sua morte. Acho injusto que todos nós tenhamos ficado em silêncio. Não só ficamos em silêncio como continuamos a nossa vida “numa boa”, como se o artista que partiu para sempre não fosse nosso ídolo.

A juventude actual não toca a música de Jeremias Ngwenha. Se calhar nem conhece a popular canção “La famba bicha”, e isso é triste, porque esta é uma figura que merece um lugar privilegiado na fina galeria da nossa música, apesar de a sua passagem ter sido muito rápida. Mas ficou o seu tema emblemático, conhecido por todas as etnias de Moçambique. É por isto e pela sua entrega à dança e ainda o cunho da sua forte intervenção social que Ngwenha merece uma homenagem da nossa parte.

Esquecemo-nos todos daquela data, porém, ainda vamos a tempo de nos redimirmos, e explicar aos jovens quem foi Jeremias Ngwenha, pois ele é uma referência. É um músico que tinha tudo para subir ao patamar dos grandes. Mostrou isso nas suas poucas aparições, e quando se preparava para outros voos a morte não o poupou. Passam 13 anos!

A luta continua!