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Categoria: Opinião & Análise
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ACENTO TÓNICO: Espácua - Júlio Manjate(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

Confesso que me dá alguma tristeza lembrar-me do Samuel, porque se na altura em que o conheci era motivo de gargalhadas e divertimento no pátio e nos corredores da Escola Primária Bagamoyo, hoje vejo a gravidade dos problemas que o bulling pode causar num indivíduo. Nas escolas, nos bairros, nas empresas e instituições, em todo o lugar. Agora que o leitor está a percorrer estas linhas, há alguém a sofrer bulling.

Samuel era colega de turma. Sentava num dos cantos da sala, tentando aproveitar a “sombra”, para passar despercebido, e assim não se sujeitar à sempre desafiante missão de ir ao quadro.

Apesar de estar na penumbra, nesse dia não conseguiu evitar que a professora de ciências lhe cobrasse participaçáo na aula. O tema da aula era o esqueleto humano, e levávamos o assunto tão à sério que o esforço era conhecer cada um dos mais de duzentos ossos do corpo humano.

- Samuel, como se chama a articulação entre o úmero e o tronco humano?

Lá no canto onde se camuflava, Samuel gelou e transpirou em pouco tempo. Era introvertido e raramente encarava os colegas olhos nos olhos. Fixou o olhar em lugar algum enquanto remoía os miolos. Não podia abrir o caderno para consultar, pois a professora não tirava os olhos de cima dele, enquanto percorria os corredores separados pelas filas de carteiras...

- Então, Samuel! - insistiu a professora, impaciente.

O grosso da turma já tinha espreitado os cadernos para ver a resposta, pois a qualquer momento aquela pergunta podia passar para qualquer um.

Rapidamente localizei: ESPÁDUA- articulação do úmero com o tronco. É sinónimo de ombro. Fechei o caderno e fiquei quieto, à espera da minha vez. Só que a professora não largava o Samuel.

- Então, Samuel, estou a ficar cansada do teu silêncio...

E não é que a professora tivesse o hábito de nos castigar, fisicamente. Até porque ela era uma irmã Franciscana, uma Católica devota. O problema era a vergonha que julgávamos que causava mostrar que não repetimos a lição em casa. E esse era o verdadeiro diferencial: Cada um fazia tudo para não ficar sem saber algo que tivesse sido ensinado na sala. Para isso repetíamos, religiosamente, as lições em casa!

Samuel transpirava no seu canto. A maioria da turma sabia a resposta, mas não podia soprar. Ademais, Samuel não tinha amigos na turma, devido àquela sua maneira estranha de ser: sempre sozinho, carrancudo, no seu canto. Sempre na defensiva...

De repente, palpitou:

- ESPÁCUA, professora!

Ouviu-se uma ruidosa gargalhada da turma, que achou toda a piada do mundo ouvir Samuel confundir ESPÁDUA, com ESPÁCUA!

A partir daquela aula, Samuel nunca mais foi Samuel para a turma, que passou a tratá-lo por ESPÁCUA, o que naturalmente lhe desagradava. Assim nascia mais um foco de bulling que, aos poucos, foi transformando Samuel num animal que estava sempre na defensiva, pronto para resolver os assuntos a soco.

Chegou uma fase em que Espácua lutava com algum colega no fim das aulas, todos os dias! Lutou tantas vezes com a Cecília, que perdi a conta. Mas nem com aquela pancadaria toda Samuel conseguia resolver o problema. Pelo contrário! Os colegas tinham cada vez mais prazer de chamá-lo pelo nome que ele não suportava. Para quem não tinha músculos para a porrada, o divertimento era menos perigoso... Bastava chamá-lo Espácua, ou apenas passar a mão pelo ombro, para ele te perseguir e assim chegares mais rapidamente à casa...

Hoje me lembro de tudo isso com muita nostalgia, mas também com pena de tudo que fazíamos sem imaginar as consequências. Há dias cruzei com Samuel, algures na cidade. Quase não o reconhecia de tão descaracterizado e desencontrado. Não foi capaz de me reconhecer, mesmo depois de lhe ter falado tanto da nossa escola e dos bons tempos que imaginei que guardasse.

Pelos vistos o sofrimento apagou-lhe a memória, até de coisas boas. Percebi que ele continua em luta, agora consigo mesmo! E pode ser que tudo tenha começado com o bulling que sofreu desde muito cedo, ainda na quarta classe...

Está claro que não lhe chamei Espácua. Tive medo do que me poderia acontecer. Afinal, um homem discriminado é capaz de tudo.