Director: Lazaro Manhiça

Sigarowane: Muhlavassi  (Djenguenyenye Ndlovu)

MUHLAVASSI, uma mulher bem entrada na idade, toda ela veias de pescoço, dos braços e de mais que os desbotados panos que a cobrem não deixam ver. O marido, trabalhador da indústria extractiva sul-africana, há vinte anos que regressou para morrer um mês depois. O Júnior já sabia de si, de sie das cabras, do colmo das duas palhotas (uma dos pais e outra sua) que tinha de ser renovado de tempos a tempos. Filho de homem que nunca soube o que é ser menino como muitos daquele pedaço de Banganhane. Cresceu nos afazeres de adultos àespera de atingir a idade de recrutamento para as minas da terra do rand. Com a morte do paitinha assegurado o lugar na companhia onde aquele trabalhara e atingira um posto de relevo. A agência de recrutamento, a Wenela, tratou de facilitar a vida do Júnior já feito maduro e namoradeiro debaixo dos cajueiros, primeiro, e na sua palhota em noites de inverno em que, muitas vezes, não se apercebia da partida da Matilde depois de horas de amor, de prazer como só se experimenta aos dezoito, dezanoveanitos. Na verdade não é muito tempo a planar, mas é muitas vezes repetido esse planar.

O Júnior foi a Jhone e deu-se muito bem nos testes de resistência. Estava apto e sem nenhuma doença crónica. Recebeu o equipamento de trabalho e ficou vivendo na companhia onde também estáo seu tio, irmão mais novo do falecido pai. Trabalhou com afinco que em pouco tempo despertou a atenção dos comandos. Tens futuro, diziam-lhe. De forma humilde agradecia ao mesmo tempo que fazia uma vénia, retomando o seu trabalho sempre com um humilde sorriso nos lábios. Sabia que o seu trabalho era muito apreciado pela direcção. Diziam-no os antigos e com cargos de chefia, mas isso não convocava a soberba.

Pela transportadora Kawena enviou material de construção para Bambane e a alvenaria foi edificada sob a administraçãode Muhlavassi, com a assistência da Matilde, que daí a tempinho estará no governo daquela família. Material e mais material saiu uma tipo três, depois uma tipo um para Muhlavassi.

Júnior ia sabendo de tudo e com todos os pormenores já que Matilde ia recebendo chamadas telefónicas suas a partir da cantina do Armindo, onde ficava a aguardar na varanda conversando com o alfaiate e outras pessoas esperando suas roupas.

Chegou de férias, sem as habituais malas grandes como era costume, e já com data marcada para o lobolo da Matilde. Foi de a vestir como ninguém na região e arredores. Depois foi a festa de durar a noite com vinho a rodos, tontonto a granel. Dia seguinte, logo pela manhã, comia-se a carcaça de um boi que depois de morto virou vaca. Matilde e Júnior, na ordem costumeira local, já eram mulher e marido, mas Matilde queria o véu e uma grinalda. Júnior queria levá-la ao altar. Por anos se falou da boda.

Tiveram um casal e decidiram por não mais filhos, o que não foi do agrado da Muhlavassi que queria ver a casa cheia de netinhos. Até porque são muito novos, façam mais filhos, dizia-lhes. Matilde não comentava nada deixando a empreitada para o marido que sempre dizia que é para podermos prestar melhor assistência e atenção no seu crescimento e educação, mãe. A senhora não se conformava, mas essa era uma decisão irredutível do Júnior.

Foram anos de felicidade e muita cumplicidade. Mesmo com a distância que os separava, minimizada com a ida à África do Sul da Matilde por um períodode trinta dias durante o ano. E ele também ia a Banganhane por igual período de tempo. Foram cúmplices até na morte: contraíram um vírus (SIDA) que os levou no intervalode mês. Foi o Júnior, primeiro, e depois a Matilde ainda as flores na campa do marido estavam frescas. Muhlavassi ficou que nem um farrapo, mas tinha duas crianças para cuidar.

Matriculou as crianças na escola. Queria que os seus netos estudassem e pedia ao Senhor que a desse saúde suficiente para realizar esse desejo. Lá começaram a ir à escola e no ano seguinte veio uma pandemia. As crianças têmde ficar em casa. As aulas serão via Internet, para uns, e os encarregados de educação terão de ir levantar as fichas na escola. Muhlavassi nunca soube escola na sua vida e não sabe como ajudar a menina. Muhlavassi nunca pegou, na sua vida, um telefone fixo sequer. Não tem celular, a sua região não tem energia eléctrica e o seu neto não recebe as aulas.

“Meus netos vão estudar quando puderem ir à escola”, diz Muhlavassi conformada com a situação.

 

Não é um ano zero?

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