Director: Lázaro Manhiça

Retalhos e Farrapos: Madeira e zinco (Hélio Nguane)

 

HOJE senti a minha mão trémula, vi a análise médica e percebi que é pouco o tempo que tenho na terra. Decidi voltar ao meu bairro, olhar os meus pertences e contemplar um pedaço de mim.

Entrei no meu quarto de criança, sentei-me na cama feita com palha, molas e sacos de sisal. Partilhei alguns pensamentos com as pulgas, meus sonhos saltavam, propagavam-se em cabeças sonhadoras, sugavam alguns instantes de reflexão e morriam nas unhas de mulheres sem interesse.

Abri a minha caixa, onde empilhava vários textos e comecei a ler:

Passa-noite

É preto, é preta, é preta, é escura, é negra a asa que sobrevoa. No chão, as famílias vivem, as mães cuidam das suas crias. É insaciável a dor deste papel, nem a caneta, o lápis, a pena da ave podem alimentar este desejo.

É concreta esta sede. Aqui em baixo, nas trevas, na desorganização dos becos do meu bairro a desgraça não passa, habita, ficou residência. É firme o desejo de mudar-me daqui para um lugar melhor, onde as mães cuidam dos pintainhos, sem temer as garras da ave de rapina que leva os filhos a sobrevoar o bairro, a apreciar prazeres sólidos, até sua carne ser consumida e sobrarem ossos que caiem como a pena do Passa Noite. (2004)

Mafalala (1)

A podridão ronda a Mafalala, a pobreza e a solidão se instalam. Becos conduzem a devassidão na Mafalala, imundície corrupção dos corpos e das mentes, usurpadas e dependentes da pobreza surpreendente da Mafalala (1987)

Olhei para os meus textos inacabados, reparei para a minha visão do mundo e ganhei forças para viver os meus últimos dias. Com os dedos ainda trémulos, peguei numa caneta velha, perdida em baixo da cama, rasguei um dos pedaços da caixa e terminei o texto, consciente de que o meu combate com Deus está próximo do fim, estou no combate 42 e só me sobram seis minutos nesta luta. Agora estou nas cordas, mas darei luta, vou aguentar firme, porque acredito na potência da minha direita. Vou acertar no queixo dele e viver mais alguns anos.

Mafalala (2)

O cimento está enferrujado, os pregos, os prédios testemunham a extinção das casas provisórias. A consciência do bairro hoje é de alvenaria, só os poetas insistem em falar da Madeira e do Zinco.

As nuvens precipitam as beatas que se deitam na areia húmida. Hoje regressei e sairei com os meus próprios pés. Amanhã temo ser possuído pela podridão e imundície que se instalaram em alguns compartimentos do meu eu. (2020)

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