Director: Lázaro Manhiça

NUM'VAL PENA: O dia em que os Mambas golearam a Itália (Leonel Abranches

 

Os jornais italianos anunciaram com alguma frieza a presença da Selecção Nacional de Moçambique em Milão. Dois jornalzecos dedicaram algumas linhas desinteressadas nas páginas interiores, onde os “Mambas” eram tidos como “outsiders” no ranking da FIFA. O jogo com a “Squadra Azzurra” era mesmo só para aprimorar alguns aspectos técnico-tácticos, pelo que a selecção europeia ia seguramente jogar na sua máxima força. O mítico Estádio Giuseppe Meazza, também conhecido como San Siro, foi o local escolhido para o jogo que se esperava de treino para os italianos. A veia futebolística dos “tiffosi” italianos é tanta que mesmo sendo um jogo de favas contadas não deixaram de encher o estádio. Uma hora antes do jogo oitenta e cinco mil almas enchiam os pulmões para gritar “lunga vita all’Italia. Lunga vita alla Squadra. Avanti dritto Italia”. No topo norte do majestoso estádio 23 moçambicanos, literalmente engolidos pelos adeptos italianos, iam timidamente desfraldando duas bandeiras da Pátria Amada. Nos balneários, Chiquinho Conde e Jojó tentavam acalmar os nervos dos jogadores nacionais. Quase todos tremiam que nem varras verdes. O estardalhaço da claque italiana não ajudava muito. As condições para uma chacina futebolística jamais vista estavam criadas. Josimar Machaisse anunciou com drama, entre duas idas ao WC, que estava com convulsões estomacais. “Tou mal pah. Deve ser daquela cena que comi ao almoço. Tinha maningue óleo...”. Todos sabiam que a “cena” que lhe revolvia o estômago era o medo de enfrentar os italianos na sua máxima força, no mítico “Meazza” e com oitenta e cinco mil gajos ao rubro. “Vátalixar Josi... vamlá jogar meu...”- encorajou Tico-Tico. As equipas perfilaram ao longo do corredor para fazerem a entrada em campo.  À frente Chiquinho Conde, com a braçadeira de capitão, seguia garboso. Elegante. A diferença em tudo era abismal, mas ainda assim ressaltavam os avantajados e poderosos músculos dos italianos. As coxas, simetricamente onduladas e rijas como rochas, pareciam ter sido torneadas à mão pelos deuses do Olimpo. Lado a lado as equipas foram entrando ao som de uma trilha cinematográfica. Perfilados, com o tradicional equipamento vermelho e preto, o braço direito em V e punho ao peito, os Mambas ouviram a caixa sonora do estádio dedicar-lhes o “Pátria Amada”. E depois foi o estrondo. O hino da Itália foi entoado em uníssono por 85 mil almas. O estádio quase foi abaixo.

Minutos depois, uma enorme tela, no topo sul, foi anunciando os nomes dos jogadores, enquanto estes iam se saudando desportivamente, com troca de galhardetes e abraços. Giovanni Trappatoni e Viktor Bondarenko trocaram um efusivo abraço. Trappatoni murmurou qualquer coisa ao ouvido de Bondarenko, de que resultou uma sonora gargalhada dos dois. Os 23 adeptos dos Mambas no topo norte vibravam, ainda que timidamente, pelos seus heróis à medida que eram anunciados: Rafael Kampango era o guarda-redes, seguiram-se por ordem de posição em campo: Miro, Paíto, Dário Khan, Josimar, Mexer, Simão Mathe, Jojó, Dominguez, Tico-Tico e Chiquinho Conde. A selecção italiana, que não poupou as principais estrelas, anunciou o seu poderoso onze: o lendário Gianluigi Buffon era o guarda-redes, seguindo-se nomes “carrancudos” como Paolo Maldini, Fábio Cannavaro, Marco Materazzi, Christian Panunci, Francesco Totti, Gianluca Zambrotta, Gennaro Gattuso, Filippo Inzaghi, Christian Vieri e Alessandro del Piero. Gajos do caraças. O jogo começou e imediatamente os italianos tomaram de assalto o meio-campo dos Mambas, massacrando-os com cruzamentos para a área, aonde chegavam com facilidade gigantes como Vieri, Inzaghi e Zambrotta. A verdade é que quatro minutos depois já os italianos festejavam o primeiro golo, fruto de uma monumental desatenção de Miro, que viu o “rato atómico” Alessandro del Piero esgueirar-se por entre os centrais moçambicanos e com um espantoso toque de génio enganar Kampango. Parecia fácil demais. Aos 42 minutos, depois de intenso bombardeamento à área restritiva dos Mambas, Christiani Panunci decidiu assumir protagonismo e assinou um golo de bicicleta, ante o olhar incrédulo de Paíto e Dário Khan. O intervalo chegou e os Mambas “só” perdiam por escassos dois golos. Os “tiffosi” começavam a perder a paciência e pediam mais. Para a segunda parte Bondarenko foi mais ousado. Tirou um defesa e alimentou o ataque com mais uma seta venenosa: Dário Monteiro. Quando menos se esperava, eis que Gattuso perde a bola no meio-campo. Dominguez, cheio de intenção, com a bola aritmeticamente conduzida, flectiu para a direita da defesa italiana, meteu uma primeira velocidade, destroncou Cannavaro com um monumental “xipawana” e no enfiamento da área pingou o esférico para Chiquinho Conde, que com um violento remate de crivela fez balançar as redes de Buffon. O estádio gelou. Os 23 moçambicanos fizeram-se ouvir no topo norte, que em delírio agitavam orgulhosos a bandeira de Moçambique. Os italianos ainda tentavam se refazer do susto quando distraidamente Materazzi “atropelou” Dário Monteiro na grande área. Penalty. Escândalo. Tico-Tico, frio como um monge siberiano, restabeleceu o empate. O silêncio era sepulcral no majestoso San Siro. Aos 70 minutos um petardo de Khan do meio da rua acentuou o deslumbre dos italianos. Giovani Trappatoni começou a ter um ataque de nervos. De uma assentada tirou Filippo Inzaghi, Christian Vieri e Alessandro del Piero. Montou um novo esquadrão para o ataque, com Marco Delvecchio, Vincezo Montella e Luigi di Biaggio. Agora era mesmo uma questão de honra.Com nervos de aço, Bondarenko assistia impávido e sereno. Até parecia que o resultado era mais do que esperado. Contudo, e contra a corrente do jogo, dois mortíferos contra-ataques resultaram em impensáveis dois golos, um de Dominguez outro de Paíto, que deitaram por terra o poderio dos italianos. Atónitos, não sabiam o que fazer, pareciam baratas tontas. Aos 92 minutos decidi que já estava e levar uma goleada insuportável. 5 a 2 começava a roçar a humilhação e parei o jogo. Pousamos os joysticks, o meu filho desligou o play station e fomos jantar. Dia seguinte paguei ao sacana do miúdo a aposta. 

P.S.: Não retirem o nome de guerra da nossa selecção.    

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