DE VEZ EM QUANDO: Ao meu amigo manhúngwè! (Alfredo Macaringue)
O MAIOR orgulho dos nhungwes é o grande Zambeze e os seus crocodilos. Também os hipopótamos. Mas há quem diz que não, o que lhes faz erguer a cabeça são as montanhas de pedra que cercam a cidade de Tete. São elas que emprestam a energia espiritual para as pessoas resistirem ao calor tórrido que já começou, depois de alguns meses de frescura.
Conheço aquele lugar que muitos dizem ser amaldiçoado e eu sempre respondi que há países mais quentes que Tete como, por exemplo, o Qatar e a Arábia Saudita, só para citar alguns exemplos, onde os termómetros atingem médias de 50 graus e mesmo assim as pessoas lá são felizes. Então se lá são felizes, em Tete também há felicidade. Se não há é por outros motivos. Aliás, a esmagadora maioria dos moçambicanos não é feliz e isso não tem nada a ver com as temperaturas.
Tenho interagido, regularmente, com o meu amigo e nunca senti, da parte dele, qualquer lamentação relacionada com a canícula. É um homem alegre, até porque tem gozado, amiúde, comigo porque a conversa nunca termina sem que me fale do “kongwe”, uma iguaria preparada com base em tripas de cabrito, dobrada e fígado. Este pitéu é a marca dos nhungwes. Você não pode ir a Tete sem comer “kongwe”, e se fizer isso, então não esteve lá.
Mbutu Yaku Tchena (nome do meu amigo) é um abnegado bebedor de pombe (bebida tradicional feita de cereais), e não passa um dia sem desfrutar desse “refrigerante”. Em todas as vezes que tenho falado com ele, noto no seu entusiasmo que “só pode ter batido uma”. Para além da alteração na sua comunicação, a música de ambiente que se ouve fortalece a minha percepção. Tanto é que já lhe perguntei, uma vez, como é que os tetenses aguentam beber debaixo do sol ardente, ainda por cima a dançarem! O meu amigo respondeu-me que a forma mais indicada para suportar “aquilo” era beber e dançar.
Tete tem este lado festivo. Naqueles ambientes vai se esquecendo a pobreza que, entretanto, no dia seguinte volta a bater a porta ao vivo e para não o encarar de novo, a melhor coisa a fazer é procurar um lugar para beber pombe. É assim como se vive na periferia e em todas as periferias das nossas cidades. São lugares onde a desgraça fica escancarada todo o tempo. Onde as pessoas não podem prever o que vão comer amanhã. Ou ainda, na pior das hipóteses, vão dormir sem saber se vão comer alguma coisa amanhã.
De qualquer forma, Mbutu Yaku Tchena é um homem optimista. De tal modo que já me disse que um dia isto vai mudar, mas enquanto não muda, “deixa-me beber pombe e comer therere”. De resto “Tete ku muyu” (Tete é nossa casa) não temos onde ir. É como diz o maronga, “a tiku i dzezu” (a terra é nossa). E o maronga fala sem nada nas mãos, a não ser o orgulho de ser maputense!
A luta continua!
