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Categoria: Opinião & Análise
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Belas memórias: Um dia inteiro no machimbombo de “Gabriêli” (ANABELA MASSINGUE-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

 

A estória de hoje é uma crónica de viagem feita na mesma direcção tomada pelo saudoso músico, Armando Mabjaia, na sua canção intitulada Xai-Xai. A diferença é que a minha foi no sentido contrário.

O enredo começa no pacato bairro de Malhangalene (homónimo de Maputo), a pouquíssimos metros da ponte sobre o rio Limpopo, numa espécie de terminal de um único autocarro que,não tinha nada a ver com o“muguirika” (corruptela de grego), do Armando Mabjaia.

O veículo, cuja marca já não consigo me lembrar, era propriedade da senhora Olga, descendente de um cabo-verdiano de nome Gabriel Fonseca. Já denunciava muitos anos de rodagem. Contudo, continuava a dar um grande jeito e era alternativa às famosas andorinhas da “Oliveiras Transportes e Turismo”, “Rodoviária de Moçambique Sul (ROMOS)”, entre outras transportadoras que operavam por aqueles anos, da década de 1980.

O ponto de partida, em Xai-Xai, era nada mais que um terreno lamacento, por conseguinte de difícil acesso, em dias chuvosos. Uma árvore frondosa defronte de uma casa coberta de zinco, também a denunciar anos de existência, e alguns carros e tractores velhos já em desuso lá ao fundo, é o que consigo reter do ambiente envolvente.

A precariedade do lugar era superada pela emoção de lá estar e poder viajar, de tal modo que nem a fadiga provocada pelo percurso dava para aborrecimento, pelo menos para nós, os mais novinhos, que sempre íamos movidos pelo passeio.

Quando terminava o ano lectivo e com resultado positivo, a passagem de classe, já se adivinhava o prémio: passeio par um dos pontos mais nobres de Maputo, o bairro da Polana Cimento “A”, bem próximo da Escola Primária 3 de Fevereiro.

O carro, também conhecido por Xibomba xa Gabriêli (machimbombo do Gabriel), tinha vários gestores dos quais se destacava o velho Filipe, também apelidado por Xiphahama, o mesmo que um tipo de abóbora, meio oval. Diziam os entendidos que tal alcunha ganhara por causa do formato da sua cabeça!!!.

Homem forte, já a caminhar para a terceira idade e com uma curva de felicidade a destacar-se, enfrentava a cada viagem a demorada espera para lotar o autocarro, discussões entre os colegas sobre quem dava a voz de comando para o carro partir, quando e onde parar.

Sim, parava-se muitas vezes e a velocidade imprimida pelo condutor era de uma moderação exasperante. Se calhar tenha sido esse o factor determinante para a longevidade do veículo e da segurança que algumas pessoas evocavam, para justificar a preferência.

As paragens para a satisfação das necessidades biológicas dos passageiros eram ordenadas a bel-prazer dos gestores, mas havia outras, já tradicionais para as refeições, sobretudo na vila da Macia ou em Incoluane, na viagem de Maputo a Xai-Xai.

Enquanto os passageiros se espalhavam pelas sombras das ruidosas casuarinas, onde se abriam as marmitas para saborear o que foi preparado com requinte para a viagem, os gestores deliciavam-se com pratos confeccionados ali no restaurante, defronte do cruzamento para a Praia do Bilene.

Junto à ponte sobre o rio Incoloane, que separa as províncias de Gaza e Maputo, estava outra paragem de carácter obrigatório, no sentido contrário, Maputo-Xai-Xai.

Eram paragens bem desgastantes mas atenuadas, como dizia, pela satisfação expectante de ver a cidade de luzes da super Avenida Eduardo Mondlane, das suas lojas bem ornamentadas com psicadélicas, muitas vezes no espírito natalício. Este cenário descrevia-se já do interior dos autocarros do transporte público, a caminho da Polana.

O itinerário inverso era também atenuado pela expectativa de ver amigas, depois de um mês ou mais de separação e…Para apresentar as prendas ganhas!

Se hoje é possível viajar de Xai-Xai a Maputo para tramitar documentos, comprar mercadoria e apetrechar uma loja, transportar passageiros e regressar no mesmo dia, o mesmo já não se podia pensar, nas condições descritas nesta viagem, pois ela durava o dia inteiro.