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Categoria: Opinião & Análise
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PERCEPÇÕES: Olha para os meus olhos!... - Salomão Muiambo(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

EM 1983, salvo erro, Samora Machel visitou Portugal.

Foi, certamente, uma visita surpresa pois, ninguém esperava por tal deslocação, logo, para um país que durante décadas não só colonizou como empobreceu Moçambique. Mais surpreendente ainda, é que Samora não foi tímido a Portugal. Não. Enganou-se quem assim pensou. Samora chegou a Portugal entusiasmado, de cabeça muito bem erguida.

Na sua deslocação à cidade do Porto, o povo saiu à rua para o acolher com alegria e entusiasmo. Samora “encheu” a cidade de “vivas”, naquele seu estilo característico. Vibrante. Deu vivas à amizade entre Moçambique e Portugal e deu vivas à amizade entre o povo de Moçambique e o povo de Portugal. O povo de Portugal ficou entusiasmado com a visita. Vibrou e quase que não o deixava partir.

Em Portugal Samora “embaraçou” um jornalista que o interpelou pedindo as primeiras impressões da sua visita. A resposta foi simplesmente contagiante, de tal forma que o jornalista ficou perplexo: “Olha para os meus olhos e descobrirás o que está se passando no coração meu”.

À insistência sobre o que se estaria a passar no seu coração, Samora voltou a insistir: “olha para os meus olhos. Conseguiu?” - e ai, o jornalista, sem chances para mais nada respondeu: “com certeza”.

Samora era assim mesmo. Tinha um olhar expressivo e penetrante, sobretudo quando conversasse seja com quem fosse. E muitos o temiam. Não que fosse mau, mas porque não era fácil encará-lo, dada a sua imprevisibilidade nas conversas.

Nada a propósito. Lembrei-me deste episódio tão somente quando dei conta de que na próxima segunda-feira, assinala-se o 19 de Outubro, dia em que Samora Moisés Machel morreu, nas colinas de Mbuzini, na África do Sul, vítima de desastre aéreo. Portanto, três anos depois da histórica visita ao país colonizador.

Até há um passado recente, em cada 19 de Outubro organizavam-se expedições para Mbuzini, onde através do canto e dança e de outro tipo de intercâmbios se homenageava o homem que ousou desafiar o sistema minoritário do “apartheid”, na África do Sul, a acabar com o apoio militar aos bandidos armados. Desafiou igualmente, o regime de Ian Smith, na Rodésia, hoje Zimbabwe, a cessar com os ataques ao nosso país. Desafiou o Malawi de Khamuzu Bandaa deixar de acolher bases do Movimento Nacional de Resistência(MNR), depois do desmantelamento do “apartheid” na África do Sul, enfim, Samora Machel igual a si.

Hoje, quando passam 34 anos após a sua partida para a eternidade - 19 de Outubro de 2020 - lembro-me de Samora com as suas “vivas” e quando no fim dos seus comícios proclamasse alto e em bom tom... A luta continua! E o povo respondia: continuaaaaa!!! Independência ou morte! e o povo respondia... venceremos!!!

Na verdade, 45 anos após a proclamação da independência nacional a luta continua contra os terroristas no norte de Cabo Delgado e contra a junta militar da Renamo, na região Centro do país e, antes da morte, continuamos igualmente, a luta pela independência total e completa do nosso país.

É caso para dizer, 34 anos após a sua morte, Samora vive entre nós. Viva a memória inesquecível do Presidente Samora! Vivaaaa!!!

Até para a semana.