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Categoria: Opinião & Análise
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Belas memórias - Repolho: o herói  (ANABELA MASSINGUE-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

“SEnão fosse eu” é o termo com o qual ficou apelidado o repolho, na década de 1980. O vegetal não fez parte da lista dos produtos raros, em plena crise económica que afectava o país. Podia, para uns e outros faltar, mas ele penetrava muitos mercados, sobretudo os das zonas urbanas, daí que muitos o tinham como alternativa para alimentar as suas famílias.

Os que podiam viajar das suas aldeias para a cidade, no mínimo achavam o repolho e, por isso, este era consumido de todas as formas possíveis,até das nunca antes pensadas. Refogado ou em forma de saladas, até com coco que duplicava o sabor adocicado, saiam pratos, cuja receita era inventada na hora, dependendo da criatividade de quem cozinhasse. Também dependendo do acesso aos ingredientes, que sempre faltavam, até o amendoim podia se usar. O acompanhamento variava da sorte em cada dia: podia ser farinha amarela, fruto de donativo, ou mandioca, que nem sempre cozia ao ponto desejado.

O cheiro exalado da sua fervura era incomodativo mas, ao mesmo tempo, dignificante pois era sinal de que numa família havia o que comer, o contrário de nada poder dar aos seus.

O fumo que saía do tecto de muitas cozinhas, falo do meio peri-urbano, denunciava que o dia tinha sido ganho. À família que pudesse repetir essa acção, olhava-se com alguma admiração.

Entre muitas famílias, o que havia em comum era fome. A Cooperativa de Consumo dava pouco, mas muito pouco aos seus membros, de cada vez que recebia produtos alimentares. Mesmo com dinheiro no bolso faltava o que comprar. E quando o açúcar, arroz e óleo chegassem, as quantidades eram exíguas de modo a abarcar o maior número possível de famílias. Já nem se olhava para o agregado familiar.

Às vezes era obrigatório comprar um candeeiro, mesmo sem necessidade, uma tigela ou copo da Vidreira de Moçambique, como forma de dar vazão a estes artigos. Às vezes um par de botas da FACOBOL ou um outro artigo de utilidade made in Mozambique que a indústria local ainda produzia.

Sempre que o carro de produtos chegasse à Cooperativa de Consumo, não passava despercebido porque a expectativa desse momento era denominador comum. A notícia, sem whatsapp, nem facebook, chegava, mesmo assim, a maior número de pessoas em tão pouco tempo. Apercebiam-se da chegada do camião de produtos os idosos, jovens e até crianças que, na sua santa inocência, celebravam, mesmo sem a certeza de que os produtos chegariam às suas casas.

A expectativa não morria até à morte da esperança que sempre é a última a acontecer. Crianças e adultos tinham, nessas ocasiões, um destino comum. Enquanto as mães puxavam conversa à espera da sua vez de serem chamadas, aquelas tinham a cooperativa como ponto de encontro para jogar a neca, a mathakosana, cheia e tantas outras brincadeiras da época, ao mesmo tempo que ficavam também atentos à chamada.

O pão, pelo menos nalguns bairros, era vendido por quarteirões, Uma família podia ter acesso a este alimento básico, apenas uma vez por semana porque as quantidades nunca chegavam para abastecer o bairro inteiro.

Quando se anunciava quem tinha ou não direito havia,inclusivamente,espaço para choros….sim, choros porque nessa altura gorava a expectativa de muitos estômagos,ávidos de ter algo para matar a fome, debalde. Assim sobrava o repolho a passear a sua classe.