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Categoria: Opinião & Análise
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Sigarowae: Djenguenyenye Ndlovu - Pedido que afugenta

BRANGANE e Ganda viviam em casas de aluguer, lá para os lados de Chamanculo. Eram vizinhos e serviam-se dos mesmos sanitários. Eles e mais outros vivendo de aluguer naquele “condomínio”, à moda de Lourenço Marques desses tempos (que até os dias de hoje continua) para o aconchego dos vientes para, na grande metrópole, ganharem a vida, estudarem em escolas que em suas terras não existiam, ou ainda de passagem para a África do Sul, onde davam no duro na indústria extractiva, voltando, depois de muitas idas e vindas, para morrer de tuberculose. Voltavam débeis e já as mulheres não eram assunto. Tinham-nas como companhia na sua espera pela morte já anunciada ainda nas terras do rand.

Brangane e Ganda não viveram esses tempos, mas vivem nas mesmas casas onde viveram os mortos. São cunhados e trabalham numa grande empresa de construção, os dois no sector de canalização. Pela manhã caminham lado a lado, de marmitas dentro de sacolas a tira-colopara os lugares das obras, regressando à casa ao final do dia, onde as mulheres já marcaram a fila para o banho reparador.

Sabido, o trabalho nas obras de construção é alimentado pela conversa, pelo canto, até solitário. Destas conversas os dois cunhados ficaram impressionados, seduzidos pelo que dizia da vida espiritual plena, da libertação do sufoco financeiro. Diziam da infalibilidade do êxito de quem se entrega.

Por vários dias discutiram o assunto, eles que nunca conheceram o interior de um templo qualquer que seja de Deus e de Jesus, sabem de ler nas paredes de edifícios de culto, de ouvir estes nomes gritados nas músicas gospel, em orações nos funerais de que por vezes acontece participarem. Discutiram o assunto durante as caminhadas de ida ao trabalho e de regresso, mas nada de produtivo. Decidiram levar o assunto àcama e quase que encontraram as mesmas reticências.

A  mulher de Brangane dizia que ele podia decidir o que considerasse bom, mas que de dinheiro não estavam bem, por isso viviam naquelas menos boas condições, quase que sem privacidade. Já faziam esforço de poupança para melhorar a vida e ter de dar dinheiro à igreja… deixe-me amar-te. Amemo-nos que a madrugada está a acabar e tenho de tratar da tua merenda. Ame-me Bra, como tratava o seu homem em momentos de desejo, de entrega. Eram dez horas da manhã quando abriram a porta para de sol se banharem. Era domingo.

A mulher do Ganda, na mesma noite, que de pequena, menina e moça frequentou a igreja, antes das doces madrugadas domingueiras coladinha ao Ganda, perguntou se as pessoas de que ouvira o falatório já tinham os seus problemas financeiros resolvidos, se a  vida espiritual dessas pessoas… “o dinheiro virá do trabalho, a tua vida espiritual tem a ver com a tua fé em Jesus, com a tua entrega a Deus. E eu agora me entrego completamente a ti, meu homem”.

As mulheres mexeram e muito com os seus homens. A conversa foi um pouco mais demorada. Até fizeram uma paragenzita na barraca vizinha de casa e uma média de cerveja para os dois, foi suficiente para a decisão.

Poucos dias era o salário na empresa, recebido em dinheiro vivo. Notas de mil, de quinhentos, de duzentos, até de cem e vinte meticais. Diferentemente do que sempre acontecia, os cunhados decidiram ir ao templo, que até fica a caminho de casa. Assistiram ao culto e até começaram a gostar. Chegou o momento do ofertório e dele participaram com o que decidiram. Estava a correr como esperavamou imaginavam.

Terminado este momento, a voz do pastor volta a encher o templo dizendo: “irmão, irmã, tire a maior nota (nota de maior valor facial) que tiver na carteira, no bolso, na bolsa e vem colocar aqui. Se não tiver dinheiro, tire o que tiver de maior valor e vem colocar aqui”. 

Os crentes foram puxando dos cordões, depositando os dinheiros, objectos de valor, quais sejam pulseiras de ouro, colares, relógios… e tudo que a pessoa julgasse de maior valor do que trazia consigo.

Durante este movimento os cunhados entre-olharam-se intrigados. Não era daquilo que esperavam. De repente  os seus olhares viraram-se para a grande porta, que lhes ficava muito perto. Puseram-se ao fresco dizendo “mais dinheiro nosso o pastor não vai apanhar”.

Brangane e Ganda não mais adentraram um templo, mas levam uma vida cristã.