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Categoria: Opinião & Análise
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LIMPOPO: Mbuzini, 34 anos depois… - CÉSAR LANGA(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

DECORRIA o ano de 1986. Estávamos em Malehice, juntamente, nós, os professores e alunos da Escola Secundária local. Na manhã de segunda-feira, dia 20 de Outubro, começou caracterizada por uma dificuldade quase que colectiva de começar com o processo lectivo, devido a alguns comentários que haviam começado a circular, inspirados numa rádio sul-africana, que na altura era muito ouvida por aquelas bandas.

Era um canal cuja linha editorial seguia, acho eu, a orientação do regime do apartheid e grande parte dos conteúdos noticiosos que difundia eram desabonatórios ao Governo de Moçambique, liderado por Samora Moisés Machel, por razões que todos nós conhecemos, como é o caso das nossas alianças com o Congresso Nacional da Sul-africano (ANC), que nos custou mortes e destruição de diversas infra-estruturas, com particular realce para as pontes.

Nenhum dos comentaristas da ocasião quis ousar a confirmação do que se propalava. Apenas se falava de um avião que, depois de levantar voo, não havia chegado ao destino e que, provavelmente, se despenhara em território sul-africano. Mas tudo devia se conformar no noticiário da tarde (13.00 horas), no mesmo canal da rádio sul-africana.

Lembro-me que nenhum professor da Escola Secundária de Malehice se dirigiu à sala, quando chegou a hora informativa. Todos nós juntamo-nos em casa do professor Chirrime, que tinha um aparelho relativamente sofisticado e que conseguia sintonizar a rádio sul-africana sem interferências. Instantes depois, era um balde de água fria sobre todos nós, naquela segunda-feira, 20 de Outubro, com um calor que podia estar acima de 35 graus centígrados!

O avião presidencial, com destino a Maputo, havia caído nas montanhas de Mbuzini! A direcção da escola não emitiu nenhum comunicado, mas os professores, unilateralmente, não voltaram para as salas de aula, ainda que ninguém assumisse a veracidade do que a rádio sul-africana havia acabado de anunciar. Apesar de alguma inocência em relação à gestão de processos semelhantes, por parte da maioria dos professores (até porque era a primeira vez que o país vivia uma situação parecida, após a sua independência) colectivamente julgou-se prudente que se esperasse ouvir algo da parte do Governo. Por isso, nada se disse aos alunos, nem mesmo foram dispensados para irem para casa, porque seria necessário argumentar o procedimento. Só quando o saudoso veterano da Luta de Libertação Nacional, Marcelino dos Santos, deu a informação oficial do Governo, se seguiram as orientações afins.

Ontem, completaram-se 34 anos sem o convívio com Samora Machel e outros membros da comitiva que o acompanhavamem mais uma missão de busca de paz para o país. Passaram 34 anos, mas ainda não se conseguiu honrar este desiderato, porque instabilidade no centro do país e terrorismo em Cabo Delgado, assim não o permitem.

 

Mas este devia ser o momento de reflexão para todos os moçambicanos, principalmente para os que teimam em manter-se distantes do convívio social, protagonizando mortes e destruição de infra-estruturas, a partir das matas e outros esconderijos, para que a paz prevaleça entre nós. Até porque a alternativa da paz é a própria paz. Porque  só assim se joga limpo(po).