Director: Lázaro Manhiça

Retalhos e Farrapos: Meu vizinho tem um Ford Everest (Hélio Nguane-Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

 

DEMOREI semanas até ganhar coragem de escrever a crónica. O primeiro texto deixei no rascunho e ressuscitei no terceiro dia, conforme as escrituras, mas as chamas do meu fogão a gás mostraram que o seu reino tinha fim.

Tirei os binóculos, visualizei o carro a sair do portão, enquanto tomava notas para a redacção da crónica.

Com a mão esquerda, notem que sou destro, rabisquei as características do veículo que tira o meu sono.

Pensei em alterar o título da crónica para “Quero um Ford Everest”. Pensei em partilhar a minha obsessão por aquele carro com a minha esposa, mas desisti, ela ainda pode ficar obcecada pelo meu vizinho e nestes dias que correm é complicado arranjar uma companheira.

Dentro de mim vozes dialogavam:

- Martin, não escreve esse texto. Vais mostrar que tens inveja, baixa auto-estima e és financeiramente incapaz de adquirir o carro – dizia uma voz lúcida, falando num tom sereno como o da minha mãe.

- Martim, escreve. Vais mostrar que tens ambição, que tens auto-estima. Só quem sonha alto alcança. E ter um Everest significa subir no topo do mundo e mostrar a todos os matrecos que tu és o gajo – dizia a voz de um careca, num tom motivador mais que do Leandro Karnal.

- Analisa variáveis, faz cálculos, projecções e perceba se o que sonhas é palpável ou insano – dizia uma das vozes, num tom firme, que nem do meu irmão mais velho.

Segui o meu mano, abri uma folha e calculei o meu rendimento anual, tendo em conta que além do meu emprego formal posso encaixar outros valores em biscates e peace job’s. tive um valor. Comparei com o preço do carro e percebi que em um ano era impossível. Multipliquei por 10 e vi que ainda estava distante. Multipliquei por 30 e vi que seria possível. Fiquei feliz e pensei em voltar a escrever a crónica. Mas de noite acordei com calafrios e percebi que tenho gastos, contas por pagar e que multiplicar o  meu rendimento por trinta significava trabalhar 30 anos, sem tirar um centavo para alcançar o meu objectivo, comprar um Ford Everest.

Amor, gás acabou – disse ela.

- Açúcar e outros produtos de primeira necessidade estão nas últimas, amor – disse ela.

- Amorreee, dinheiro da Creche… amor, quando vais depositar? – disse ela.

- Estamos a usar muita água. Os teus banhos de chuveiro são muito longos. A conta está a duplicar, amor – disse ela.

- Vamos passar a tomar banho juntos, amor. E sobre o resto. Não se preocupe, vou acertar – disse eu.

Ela ficou em silêncio, abraçou-me, fechei os olhos e me imaginei a conduzir o Ford Everest, a caminho de uma praia deserta em Inhambane.

- Energia está para acabar – ela cortou minha imaginação.

Refiz os cálculos, contei com uma promoção no trabalho: “Sendo chefe, consigo um Ford”, pensei. Vi a minha progressão. Aumentei no meu salário e percebi que se for bem comportado, em 20 anos consigo o Ford. Mas fiquei de novo desmotivado, pois, seriam 30 anos, contando com os gastos que minha esposa no final do mês me recorda. Mas vendo bem seriam 40, pois sendo chefe tenho de ter uma vida melhor, um açúcar de melhor qualidade, chuveiro com água quente. Posso continuar a tomar banho com ela, mas com água quente, claro. Tenho que ser mais bem comportado e, provavelmente, consigo o valor em 15 anos. E de novo surge um mas: as promoções por bom comportamento não dependem de mim, dependem do avaliador e teria de tirar uns porcento para pagar cerveja, vinhos requintados, gin com tónica ou gás e um para comprar Dicionário de Elogios e um Manual de Como Sorrir e Baixar a Cabeça. Para ter o Everest, aceito. E mais, tenho que acrescentar a edição completa e ampliada do Manual Teórico e Prático de Como Engolir Sapos Com Subtileza.

“Detesto manuais de auto-ajuda”, disse para mim mesmo. “Mais são necessários, meu caro”, acrescentou a voz do careca.

Voltei a olhar para a minha esposa, sentei e escrevi tudo o que pensei. E se ela ler: direi que é ficção. Mas o vizinho tem um Everest.

- Diga que o texto é baseado em factos reais.

 

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