Director: Júlio Manjate

Destacar o papel da mulher é uma das grandes apostas da empresa Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), que diariamente busca o desenvolvimento dos seus colaboradores e da comunidade em geral.

Clotilde Maita, de 30 anos de idade, está entre as três jovens maquinistas desta empresa. É que, pela primeira vez na história dos CFM, esta empresa pública abriu as portas para mulheres na carreira de maquinista.

Aliás, não é mais novidade que a mulher está a entrar no mercado do trabalho em todas as áreas e que agora se destaca também no sector dos transportes. O ambiente tradicionalmente dominado por homens está a ganhar cada vez mais o toque feminino, aliado ao facto de a mulher não ter medo de enfrentar as dificuldades encontradas neste ramo de actividade, o que prova que ela apenas precisa de oportunidade para mostrar o que vale.

Numa conversa animada Maria Nhapule, reparadora de pneus, Clotilde Maita, maquinista de comboio, e Mariamo Abias, motorista na Empresa Municipal Transportes Públicos de Maputo (EMTPM), nos contaram as suas histórias e paixões pelas áreas de actividade que abraçaram bem como as suas expectativas e batalhas diárias.

APRENDI QUE NADA É IMPOSSÍVEL

Clotilde é maquinista de comboio, que entretanto sonhava pilotar aeronaves. A jovem confessou ao “Notícias” que foi sonho de infância seguir uma carreira que não fosse normal para as meninas. “É que não me via numa secretária ou atrás do balcão”.

Sobre a reacção dos passageiros ao ver uma mulher no comando daquela grande máquina a nossa entrevistada afirmou: “os passageiros apercebem-se, mas os que já andam cá há algum tempo já não ligam, mas os que me vêem pela primeira vez acham engraçado. E há reacções, mas nunca desagradáveis. Alguns perguntam se sou mesmo uma mulher. Nos primeiros dias eu achava piada, pois via passageiros com receio de entrar no comboio, mas não tinham outra saída”, explicou Clotilde.

A jovem ingressou nos CFM através de um concurso público lançado em 2010 pela empresa e depois da selecção dos candidatos o curso iniciou a 19 de Julho de 2010 e terminou a 2 de Dezembro de 2011. “Admitiram para as provas 167 candidatos, dos quais apenas cinco eram mulheres. Passámos por várias etapas e ficámos três meninas e 41 rapazes”, disse Clotilde, salientando que o curso não foi fácil, mas para quem tivesse noções de mecânica e electricidade era mais fácil ainda porque, numa primeira fase, o estudante aprende todo o sistema eléctrico que faz com que a máquina funcione.

Segundo a jovem, a outra complicação durante a formação teve a ver com o domínio dos instrumentos com os quais funciona a locomotiva, que totalizam oito. Estes instrumentos são ligados antes de dar o arranque da locomotiva.

Para Clotilde Maita, a primeira parte da prática foi a mais interessante de toda a formação, uma vez que era primeira vez que estava perante uma locomotiva. “Aprendi a verificar os níveis de óleo, água e verificar se os motores estão em condições para uma viagem. Por ser uma máquina enorme, nos primeiros dias metia-me medo, mas fui me habituando e aprendi que nada é impossível”, realçou Clotilde Maita.

A nossa interlocutora conta que para além de ter medo da máquina, temia descarrilar por causa das agulhas que são colocadas pelas crianças ao longo da linha-férrea. “O facto é que na minha infância acompanhava algumas histórias sobre as locomotivas e uma delas é que uma agulha de cozer roupa colocada na linha-férrea pode fazer cair uma locomotiva, o que não é verdade. Durante o curso fiquei a saber que não se trata desta agulha caseira, mas de um aparelho que serve para mudar o itinerário do comboio e se ela estiver mal colocada o comboio descarrila. Eu mesma me recordo que na adolescência com as outras crianças colocávamos agulhas na linha-férrea e nunca descarrilou nenhum comboio. Mesmo agora às vezes deparo-me com situações de muitas pedras colocadas por cima da linha-férrea, mas passamos sem problemas”, disse Clotilde, salientando que não há dúvidas que essas pedras são colocadas por crianças que querem “matar” curiosidade como ela também fazia quando era criança.

A jovem já realiza viagens de longo curso e tem viajado para a África do Sul, Salamanga, Mabalane, Chicualacuala e Suazilândia. A sua primeira viagem foi para Komatipoort, um trajecto que durou três horas de tempo só a ida e mais três à volta, totalizando seis horas, a tripular uma locomotiva a diesel. “Não foi fácil, primeiro tive aquele frio de medo, mas também tinha aquela curiosidade de sentir nas minhas mãos esta máquina enorme”, explicou Clotilde Maita.

A jovem considera que os acidentes ferroviários são a parte mais triste da sua carreira, pois existem pessoas adultas e crianças que não respeitam a linha-férrea e é complicado porque o comboio não faz uma travagem brusca, só é possível parar quando a distância for de um metro, mas não é aconselhável. “Então nesses casos não temos outra solução senão atropelar a pessoa que estiver a atravessar a linha-férrea, no lugar de colocar em risco os passageiros, que não são poucos”.

Para as outras raparigas Clotilde deixa como conselho a determinação, porque sempre acreditou que uma pessoa determinada nunca perde. “Também gostaria de dizer às mulheres que podem exercer qualquer actividade, não há nada específico para o homem ou para a mulher, nós também temos capacidades, o importante é coragem, atrevimento e determinação”, finalizou Clotilde Maita.

NÃO HÁ NENHUMA DIFERENÇA

Alberto Mário é utente do comboio e afirma que por várias vezes já viajou numa composição cuja maquinista é a Clotilde Maita e só se apercebe depois de chegar ao destino. “Nunca achei diferença, ela é uma boa profissional, o que prova que já não existe profissão masculina ou feminina”, disse Alberto Mário.

O nosso entrevistado reconheceu que a primeira vez que se apercebeu que iria viajar com uma mulher na tripulação pegou susto, mas não tinha outra alternativa. “Estava com a minha esposa e íamos à Salamanga. Não acredita nela, mas ela provou a todos que é uma boa profissional”, disse Alberto Mário, que trabalha num restaurante.

Armando Massinga, também utente de comboio, mostrou-se satisfeito com a prestação de Clotilde. “Sou utente e gosto de viajar com ela. Aliás, as mulheres são mais atenciosas e noto isso na tripulação dela”, acrescentou Massinga.

O nosso interlocutor acrescentou que no primeiro dia que apanhou o comboio com a Clotilde a tripular a locomotiva assustou-se porque nunca tinha visto uma mulher a operar aquela grande máquina. “Isto prova que a mulher só precisa de oportunidade para demostrar as suas capacidades”, salientou Armando Massinga, que é um funcionário público. 

MONTAR E DESMONTAR PNEUS É MINHA PAIXÃO

MariaNhapule é uma mulher incomum, de estatura alta e forte. É simpática e pega no macaco para montar pneus e não tem medo de enfrentar o duro dia-a-dia de uma oficina. Para ela, o ambiente de trabalho de uma oficina é o melhor que existe. O seu posto de venda de pneus localiza-se na Avenida Acordos de Lusaka, na capital moçambicana.

Em entrevista à nossa Reportagem, Maria Nhapule explicou que começou a desenvolver este negócio na década de 80, com apenas dois pneus de camião, e foi crescendo. “Na altura não havia a cultura de oficinas, fazia entrega ao domicílio e o meu principal cliente era a empresa transportadora Oliveiras, que já faliu”, disse Maria, salientando que mais tarde passou a vender pneus pequenos e abriu uma oficina.

A nossa interlocutora disse ainda que sempre gostou de fazer trabalhos tidos como masculinos, recordando que muito antes de vender pneus trabalhou numa barbearia, onde cortava barba e cabelo a homens. Segundo a sua explicação, o apoio do marido foi fundamental para a sua inserção neste mercado.

Maria Nhapule traz os pneus da vizinha África do Sul. “Várias vezes vou pessoalmente àquele país pelo menos duas vezes por mês e trago 200 pneus”, disse a nossa entrevistada, acrescentando que está satisfeita com o seu negócio porque consegue rendimentos suficientes para o sustento da família.

Mãe de três filhos e avó de três netos, a nossa interlocutora afirma que o negócio de pneus mudou o rumo da sua vida para o melhor, e como exemplo cita a construção de duas casas e aquisição de três viaturas.

Ela conta ainda que já passou por muitas dificuldades na vida, mas que as mesmas foram superadas graças à sua determinação e da família que sempre acreditou nela. “Já passei muita fome, já dormi sem jantar e sem cobertor. Portanto, já tive falta de tudo, até de chinelos para andar na rua. Não tinha capulana, situação que mudou bastante. Hoje tenho um pouco de tudo”, conta Maria a sorrir.

A nossa entrevistada revelou que para vender pneus é preciso conhecer o produto para no momento da compra identificar os pneus com furos ou rasgados, mas também é preciso saber colocá-los. “Mesmo assim não consigo evitar prejuízos. Como faço a montagem cá em Moçambique às vezes descubro quebras e deito fora. Por exemplo, em cada 100 pneus 10 são quebras”, explicou Maria Nhapule.

Em relação à reacção dos clientes, quando a vêem debaixo do carro a colocar um pneu, é de espanto. “Assustam-se e sempre perguntam se não está outra pessoa para fazer o trabalho e eu digo a pessoa para não se preocupar. Alguns homens mandam-me afastar e eu digo que não, estou a fazer o meu trabalho”, finalizou Maria Nhapule.

COMECEI POR RECOLHER LIXO

Mariamo Abias é motorista na EMTPM, carreira abraçada depois de ver gorado o sonho de infância de ser enfermeira. O seu primeiro emprego foi no Conselho Municipal da Cidade de Maputo como fiscal e mais tarde como motorista do camião de recolha de resíduos sólidos, atividade que lhe deu a graça de conhecer toda a cidade de Maputo.

Depois de 14 anos no Conselho Municipal, divididos entre a actividade de fiscalização e de recolha de lixo, em 2005 Mariamo ingressou na Empresa Municipal Transportes Públicos de Maputo (EMTPM) através de um concurso público, onde num total de 21 candidatos foram apurados cinco, dos quais uma senhora, que é ela.

Para Mariamo, a força de vontade e determinação supera todos os obstáculos. “Conduzi um camião de recolha de lixo, trabalho que geralmente era reservado aos homens e vi gente a olhar-me mal, mas prossegui e hoje sou uma profissional na condução”, disse a nossa entrevistada, salientando que sempre encarou a condução da viatura da recolha de lixo como um trabalho normal e ao mesmo tempo humanitário.

Como momentos marcantes ao longo da sua carreira, sobretudo no Conselho Municipal, Mariamo citou os episódios de recolha de corpos em diferentes morgues da cidade de Maputo para a vala comum”. Sempre que tivesse que realizar este trabalho ficava mal disposta. Mas também marcou-me o facto de ter achado algumas vezes nados mortos em contentores de lixo”, realçou Mariamo Abias. 

Contudo, a nossa interlocutora reconhece que aprendeu muito nos dois empregos e aconselha a toda mulher a ser persistente para vencer na vida.

Joana Macie

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