QUANDO a mulher perde o marido, por morte, é submetida a rituais ou práticas tradicionais, como esconder as unhas e colocar as mãos apoiadas na coluna vertebral quando caminhar e ajoelhar para saudar os mais novos.

Essa forma de se apresentar quando viúva é vista por alguns analistas como sendo uma forma de discriminar as mulheres. Contudo, outros alegam que há razão de existência desses costumes, que permanecem na mente de algumas viúvas.

Alice Machel, cuja idade desconhece, vive no distrito de Chókwè, província de Gaza, e não escapou a estes usos. Esta idosa perdeu o esposo há mais de 30 anos, mas não se esquece dos rituais a que foi submetida na altura.

Outrora as idosas levaram a viúva a uma mata isolada da comunidade. Fazia-se lume e ela tinha que saltar o fogo de um lado para o outro, enquanto lhe diziam como é que ela, sendo viúva, deveria se comportar perante os outros membros da comunidade. Para além disso, com uma lâmina eram lhe retirados os pêlos da púbis, rapada o cabelo e o produto obtido era jogado na fogueira.

“Deram-me um lenço para usar na cabeça, mas em momento algum eu deveria tirá-lo a ser visto por pessoas mais jovens. Foi difícil, mas tive que aceitar porque era assim, não tinha como escapar disso”, referiu a idosa.

Para Fernando Mate, médico tradicional, essas práticas de alguma forma aumentam o sofrimento da mulher e não vê a razão da sua existência. Entende que há outras formas menos duras que as famílias podem adoptar para simbolizar a viuvez (mais detalhes na caixa abaixo).

Os rituais são feitos sem explicação do porquê é obrigatório cumpri-los mas no meio rural ninguém ousa em desobedecer. “Dizia-se que quem não cumprisse ficaria maluca e ninguém desafiava experimentar”, interpreta a anciã Kelda Tchoveteé.

Kelda é viúva há 25 anos. Conta que enquanto saltava o fogo diziam-lhe que sempre que andasse na rua deveria apoiar as mãos cruzadas na coluna vertebral (as mãos tinham que estar em forma de punho). Ao andar na rua não deveria saudar os demais membros da comunidade em voz alta e quando fossem jovens ela tinha que ajoelhar para cumprimentar e nunca deveria saudá-los em pé. A viúva tinha que cumprir estas regras até que a família decidisse lhe tirar o luto. O tempo dependia de cada família, algumas era de seis meses, outras no mínimo dois.

O “KUTCHINGA” E O CHÁ MATINAL

 “Kutchinga” (manter relações sexuais com um familiar do marido falecido – de preferência irmão) tal como o ritual é conhecido na zona sul do país, é outra prática tradicional a que as viúvas são submetidas. Kelda diz que não aceitou juntar-se a nenhum familiar do marido e cumprir esta tradição.

“Já estava muito crescida e disse à família que não queria mais ter marido e compreenderam. Mas para isso o meu filho mais velho teve que ser o primeiro a manter relações sexuais depois da morte do pai. Quando amanheceu a sua esposa fez o chá para servir aos demais membros da família. Faz-se isto para não criar problemas na família”, entende Kelda.

“As mulheres que perdem os maridos ainda jovens são as mais vítimas da prática do kutchinga no meio rural”, observa a viúva Marta José Nhate. As mulheres submetidas a este ritual cumprem ainda outras regras.

“Por exemplo, quando a viúva está menstruada não deve em momento algum dormir na cama com o novo marido, ela deve sim deitar-se numa capulana ou numa esteira até terminar o período menstrual. Quando passar a fase da menstruação ela é obrigada a argamassar toda a área onde ela dormia. Depois disso é que poderia se deitar na cama com o marido”, observa Marta.     

INFLUÊNCIA DA IGREJA

Contudo,algumas famílias, embora que de forma tímida, vão abandonando estas práticas ou realizando-as de forma menos dura.

“Hoje em dia são poucas as mulheres jovens que cumprem estes rituais”, refere Angelina Chaúque, do 3º bairro do distrito de Chókwè. As igrejas, sobretudo evangélicas, são apontadas como sendo as que mais contribuem para o abandono destas práticas.

 “Estes rituais oprimiam as mulheres, mas acho que não se deveria abandonar na totalidade. Hoje em dia surgem muitas doenças e muitas mortes porque os jovens não querem saber da tradição”, cogita Rita Mahuai, anciã residente na localidade de Macarretane, no distrito de Chókwè.

Alguns especialistas em matéria tradicional dizem não encontrar sentido nessas práticas.

COSTUMES SEM SIGNIFICADO

“Algumas práticas tradicionais não têm razão de sua existência, pois estão apenas para oprimir as mulheres e aumentar o seu sofrimento”, segundo argumenta Fernando Mate, porta-voz da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO).

 “O kutchinga é a estratégia adoptada por algumas famílias que não querem perder os bens do malogrado, isto porque obrigando a viúva a envolver-se com o familiar do falecido essa família ainda sente o poder de dominar essa mulher. Penso que é uma estratégia dos nossos antepassados que as famílias foram transportando até hoje, mas que não vejo a razão de ser”, observa.

Mate opina que ao invés de obrigar as viúvas a se casarem com familiares do falecido marido poderiam submetê-las a um ritual de purificação simples, como um banho de ervas e outros medicamentos.

Explica que há necessidade de se purificar a viúva para que o espírito do marido falecido não a persiga e a crie problemas caso ela decida arranjar outro marido.

“A purificação é feita para afastar o espírito do marido da senhora que, geralmente, quando a morte é recente a assombra e quer controlá-la porque ainda pensa que é dono dela”, explica.

Mate não encontra explicação para a prática de cortar o cabelo da viúva e comenta: “Acredito que isto é feito por algumas famílias que têm crenças herdadas dos antepassados. Já ouvi falar e vejo também que quando a mulher perde o marido deve caminhar com as mãos apoiadas na coluna quando ainda está de luto. Para mim isto é um sofrimento a que a mulher é submetida e não vejo sentido algum nessa prática”. 

PRESERVAR O QUE É BENÉFICO

“É IMPORTANTE preservar a nossa tradição mas é preciso que antes de tudo se analise até que ponto uma determinada prática tradicional é benéfica ou nociva para a vida de homens, mulheres e crianças”, entende o analista social Gilberto Macuácua.  

“Muitas vezes trazemos um discurso de preservação da tradição quando nos convém. Por exemplo, quem se beneficia com o kutchinga somos nós os homens. O contrário não pode acontecer, pois nenhuma mulher tem o direito de tchingar um homem, apenas pode ser tchingada”, observa Macuácua.  

A nossa fonte explica que isto convém ao homem porque, na construção das normas sociais, algumas das expectativas da sociedade para com os indivíduos do sexo masculino eram de que estes tenham várias mulheres, que sejam viris e que demonstrem que têm mais poder com relação à mulher.

“Tchingandoele se sente naquele momento mais homem e um macho perante uma mulher que muitas vezes não tem direito a escolha. Mas este mesmo homem, se olharmos para os tempos primitivos, onde os nossos antepassados vestiam peles de animais como parte da tradição, e perguntarmos por que é que ele veste roupas de pano e não preservou aquela tradição, ele diz claramente que os tempos são outros. Ora, vestir peles de animais já não convém a este homem. Aí a tradição já não pode ser preservada no seu entender”.

Para Macuácua, as nossas tradições estão cheias de tabus que amedrontam as pessoas. Poderiam ter resultado naquele tempo, mas muitas delas já não têm enquadramento nos tempos actuais, não obstante em algumas regiões do país ainda se mostrarem muito fortes.

Nas regiões onde persistem, entende a nossa fonte, ainda têm um valor social muito forte e creio que ajudam na prevenção de muitos problemas. Contudo, “onde existe o bem, existe o mal também”, opina.

Evelina Muchanga

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