Director: Lázaro Manhiça

JÁ lá vão os tempos em que a mulher era subjugada e estereotipada, sobretudo em relação a determinadas actividades sociais. Predominantemente, a ela era atribuído o trabalho doméstico e com a missão específica de cuidar do marido e dos filhos.

Essa realidade está a mudar aos poucos, havendo pela frente muitos desafios por superar. Porém, a prova evidente de que tais estereótipos vão pertencendo ao passado reside no facto de um número cada vez mais crescente estar a assumir cargos outrora reservados ao homem. E como se tal facto não bastasse, a mulher vai ganhando espaço até para ocupar cargos de chefia e de confiança nos mais diversificados sectores de actividade, incluindo nos órgãos de tomada de decisão.

A ideia de que o homem tem mais força ou habilidades para certos trabalhos em relação à mulher está a ser descartada pelo tempo, pois era usada como argumento para impedir que a figura feminina assumisse algumas actividades, sendo que a realidade hoje demonstra o contrário.

Hoje em dia há cada vez mais mulheres actuando em diversas áreasantes reservadas aos homens,taiscomo engenharia, construçãocivil, mecânica-auto e industrial, entre outras. Aliás, nos dias que correm vemos até mulheres a desempenharem com brio e profissionalismo elevados cargos governamentais. 

Para nós, não constitui surpresa, por exemplo, ver a mulher inserida na área de cobrançanos transportes semicolectivos de passageiros, quer públicos ou privados, o que nos orgulha.

A cobrança, por muitos anos, foi actividadeexclusiva do homem. Contudo, com o passardo tempo váriassão asmulheres que aceitam o desafio, vencem preconceitos e exercem a actividade lado a lado com o homem.

O que elas contam

As cobradoras servem de auxiliar e guia dos passageiros no sistema dos transportes. Elas cobram as tarifas por viagem, convidamos passageiros a embarcarem nos seus autocarros, organizam-nos e sãoresponsáveispela produção da receita diária, assegurando a rentabilidade da viatura.

Marcela Yone, de 32 anos de idade,é exemplo do que aqui descrevemos. Cobradorahácinco anos, abraçou aactividade depois demuita procura peloemprego, porém, sem sucesso. E a primeira oportunidade de emprego foi o “tudo ou nada” para o sector dos transportes.

Começou a exercer a actividade na Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), durante um ano.

Yone disse que passado este período decidiu voltar à escola, tendo interrompido a actividade para cursar administração pública.

Acrescentou que após concluir o curso bateu várias portas, concorreu para algumas vagas em muitas empresas, porém, sem sucesso. 

“Depois de muita procura decidi voltar para os transportes, tendo abraçado a área da cobrança. Como já possuía alguma experiência, acumulada durante o período em que trabalhei na FEMATRO, consegui, com relativa facilidade, empregar-me numa outra operadora de transportes”, disse. 

Actualmente a cobradora trabalha na Cooperativa de Transporte Zimpeto-Magoanine (COTRAZIMA), há quatro anos. Levanta-se por volta das 04 horas para se preparar e chegar ao terminal rodoviário de Magoanaine atempadamente.

Segundo contou, a primeira viagem inicia por volta das 05 horas, na rota Magoanine-Baixa. A meta são seis voltas em média por dia, para poder completar a receita que lhe é exigida pela entidade patronal.

“Não é fácil. Por vezes chego à casa por volta das 22 horas, facto que criava algumas desinteligências entre eu e o meu esposo”, indicou.

Assédio e desprezo notransportes

Muitas mulheres em funções neste sector têm sido assediadas no de curso das suas actividades. Tal assédio consiste em palavras obscenas e, não raras vezes, acompanhadas de outro tipo de várias provocações.

Yone disse que, para além do assédio, nalgumas vezes é menosprezada por ser mulher. Contou-nos que certa vezum passageiro chegou a sugerir-lheoabandonoda actividadee consequente regresso à casapara cuidar dos trabalhos domésticos e do esposo.

“Alguns, erradamente, pensam que estamos nesta área porque não estudámos. Outros, sobretudo homens, fazem-nos propostas de melhor emprego e outros ainda propõem-nos para servirmos de suas esposas, alegadamente porque estamos em emprego errado para mulheres”, lamentou.

A interlocutora relatou que com o pouco que acumulou em razão do seu magro salário conseguiu adquirir um espaço onde construiu a sua própria residência, tendo a apetrechado como mínimo de bens necessários para uma vida melhorada. Aliás, orgulha-se que na sua casa nunca faltou o pão diário para o sustento da família. 

Tal como Marcela Yone, Assa Cossa é cobradora há 10 anos, tem de 35 anos de idade e entrou para esta actividade por falta de emprego no mercado. Recebeu a proposta de trabalhar na cobrança e, com um filho por cuidar, decidiu aceitar o desafio. E hoje é o sustento da família.

No início teve ajuda de um cobrador experiente, mas pouco tempo depois partiu para a aventura de trabalhar sozinha. A primeira viagem começa por volta das 06 horas da manhã e a última termina entre as 22 e 23 horas.

Cossa contou que no princípio foi complicadaa conivência com o esposo devido ao horário tanto da entrada como de saída do trabalho.

“O meu esposo era muito ciumento, mas acabou por se conformar com a realidade. Hoje em dia compreende a natureza do meu trabalho, aliás, respeita-o”, disse.

Por semana a cobradora trabalha dois dias e folga igual número.

Relatou-nos que alguns motoristas têm preferência em trabalhar com homens, alegadamente, por estes serem mais activos. Todavia, desmentiu tal facto, afirmando que há mulheres activas, dinâmicas e, sobretudo, flexíveis, com pujança e força de conquistar passageiros,uma vez que a actividade é marcada por forte concorrência e competição desregrada entre os transportadores. A meta é o cumprimento da receita diária.

“Hoje sou chamada “Maria-rapaz” pelos meus colegas, por causa dessa minha flexibilidade no trabalho”, sublinhou.

Nas horas de ponta os autocarros circulam, geralmente, superlotados. E, à medida que o autocarro circula de um terminal para o outro, pelo meio registam-se desembarques e novos embarques, o que requer da cobradora astúcia para organizar os passageiros de modo a que viajem o mais comodamente possível.

Nas horas de pouco fluxo, para poderem garantir a rentabilidade da viatura, começa o “barulho” do chamamento dos passageiros, o que, segundo a interlocutora, não é tarefa fácil.

Não é muito que ganha no final do mês, porém, Assa Cossa orgulha-se pelo facto decom o salárioter adquirido um espaço para construção da sua residência e estar a conseguir o sustento da família.

Por seu turno, Constantino Uamusse, motorista há 22 anos, contou que por muito tempo trabalhou somente com homens, mas, orgulhosamente, conta com a colaboração de uma mulher na cobrança das taxas de viagem. 

Indicou que o mais importante é ter flexibilidade e capacidade para gerir um autocarro ocupado por mais de 100 passageiros, isto de modo a completar a receita do dia.  

Por outro lado, João Mambo, utente dos transportes, enalteceu o trabalhou exercido por este grupo social, afirmando que as mulheres respeitam mais os passageiros quando comparadas com os homens. Estes, geralmente, têm apresentado um comportamento de certo modo agressivo.

Casimiro Fuler, gestor da COTRAZIMA, disse-nos que começou a admitir mulheres na sua organização em Julho de 2019, depois de uma sensibilização feita pelo Fundo de DesenvolvimentodosTransportes e Comunicação (FTC), no sentido de dar oportunidade a esta camada social.

Referiu que inicialmente contratou duas mulheres que operam em autocarros diferentes, juntamente com outros dois cobradores para garantir maior flexibilidade no trabalho.

Fuler assegura que o trabalho desenvolvido pelas cobradoras é muito positivo, pois as mesmas cumprem com as metas estabelecidase demonstram boa atitude em relação ao trabalho que desenvolvem.

O interlocutor afirmou que alocando mais autocarrospara a sua cooperativa privilegiará a camada femininanas admissões, pois a mesma tem vindo a mostrar que tem força e habilidades para exercer esta actividade, antes considerada exclusiva para homens.

Falta de contratos em preocupante

A falta de contratos de trabalho constitui umadas principaispreocupaçõesdas cobradoras e não só.

Elasdisseram que devido a esta situação muitas trabalham sem segurança, comreceio de a qualquer momento perderemos emprego.

“Sem contrato corremos o risco sempre iminente de perder o emprego. Não há nenhum documento assinado entre as partes que nos dê a mínima segurança no posto de trabalho”, disse Zilda Condo, cobradora da rota Zimpeto-Baixa.

Acrescentou que já viveu casos de colegas expulsos, porque faltaram ao trabalho por motivos de doença, outros ainda porque não conseguiram completar a receita do dia.

“É normal chegar aolocal de trabalho e encontrar alguém no seu lugar”, lamentou.

 

(EDÍLIA MUNGUAMBE)

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