PINTAR sobre o vidro, uma técnica que embora não seja nova é pouco explorada no país, é o que propõe o artista plástico moçambicano Carnot N’zualo, na exposição individual “Pintura sobre o vidro: não sei o que é”, patente até 19 deste mês na Galeria do Flor de Café.
O pintor que entrou nesta aventura na busca de algo diferente, transformou vidros em telas e buscou um material propício para concretizar o seu ensejo. “Só vi isto trabalhado nas igrejas, em vidros coloridos. Nunca vi alguém a fazer, então foi uma experiência ímpar para mim”, revelou.
Foi deste modo que nasceram as 14 peças que compõem a individual de quem experimentou a dificuldade de fazer arte sobre o vidro, um “terreno” escorregadio e sensível. “Parti muitos vidros e cortei-me bastante”, brinca.
A sensibilidade deste material, entretanto, não o fez desistir, apesar de tomar conhecimento da dificuldade de encontrar os materiais necessários para secar a tinta na vidraça e dar o brio que se pretende.
“Tive uma conversa muito útil com o mestre Naguibo e disse que tinha que pedir alguém trazer-me uma espécie de tinta de gel grosso directamente de Portugal ou da Espanha”, mas, por questões financeiras aliadas à crise causada pela pandemia do novo coronavírus, “decidi trabalhar com o material disponível no nosso mercado”.
Neste sentido, as peças que podem ser apreciadas na Flor de Café resultam de muitos ensaios de “spray” e tinta acrílica.
Carnot explica que o vidro exige que seja pintado pelos dois lados de modo a melhor combinar as cores, visto que trata-se de uma tela transparente. “É mais trabalhoso porque tens que fazer as duas faces e muitas vezes, ao pintar atrás, tens que imaginar a coisa que pode aparecer a frente”, explicou.
A exposição continua com a mesma ideologia temática das mostras anteriores do artista. Quem pôde apreciar os outros trabalhos pode perceber esta proximidade que faz com que o expositor não seja ofuscado pelas novas obras.
Aborda a profundidade da alma, na obra “Flores d’Alma”, a beleza feminina, em “Langery”, o quotidiano, em “Fofoqueiro”, a vida no deserto, em “Sahara” e as ocasiões especiais em “Cabaz do Chefe I e II”, que junto de “O Garrafão de Muphaquel”, são as duas criações mais diferentes que fazem o apreciador viajar para o mundo da reciclagem.
Os garrafões são de vinho de vinte litros e fazem parte da colecção particular do artista. São uma relíquia do tempo colonial.


