Director: Júlio Manjate

OS governos de Moçambique e da África do Sul renderam semana passada uma homenagem aos 63 mineiros moçambicanos vítimas da tragédia de Waterval Boven, por ocasião da passagem dos 70 anos do acidente ferroviário que ceifou a vida dos nossos concidadãos.

As cerimónias acabaram por constituir um momento de reflexão sobre como imortalizar este momento. O acidente ferroviário aconteceu a 16 de Novembro de 1949 e a homenagem teve lugar na sexta-feira passada, na localidade de Waterval Boven, província de Mpumalanga, na África do Sul.

Segundo relatos oficiais, o acidente foi originado pelo descarrilamento de uma locomotiva quando passava por uma ponte. A composição tinha como destino Ressano Garcia e transportava mineiros que regressavam à terra natal para férias, depois de 18 meses de trabalho.

A homenagem começou com a visita ao monumento erguido na vala comum, onde as vítimas foram sepultadas, no Cemitério de Nguenha, e terminaram no local da ocorrência que ficou conhecido por Mozambique Train Disaster Site (local do acidente do comboio de Moçambique).

No local, para além da deposição de uma coroa de flores, houve lugar a orações e rituais tradicionais evocando os espíritos para que proporcionem bonança e sorte aos familiares das vítimas, aos habitantes e comunidades vizinhas, aos automobilistas que transitam pela N4 (que está próxima), como também às composições ferroviárias que continuam a passar pela localidade.

Segundo os residentes, desde então Waterval Boven tornou-se palco de muitos acidentes, o que motivou as autoridades a passar a fazer o ritual em homenagem às almas dos perecidos.

O Governo moçambicano foi representado pelo cônsul nas províncias de Mpumalanga e Limpopo, Eugénio Langa, e pelo Governo da Província de Maputo. O Governo sul-africano foi representado pelo presidente do município de Emakhazine, Thomas Ngwenya, em representação do director provincial da Cultura e Desporto de Mpumalanga.

Olga Manjate, chefe da comitiva moçambicana, em representação do governador da província de Maputo, disse que a evocação dos perecidos no acidente é fruto das relações de irmandade, amizade e solidariedade que unem os dois povos rumo à criação do bem-estar comum.

Acrescentou que esta é também uma recordação do sangue derramado, em ambos países, na luta contra o regime do Apartheid, sistema sociopolítico que vigorava aquando do trágico acidente.

Manjate afirmou que a presença dos representantes do Governo de Moçambique na homenagem aos heróicos trabalhadores constitui testemunho da reafirmação da vontade de juntos trabalhar para a erradicação da pobreza nos dois países.

“Prova disso a 18 de Maio do ano passado assinamos um memorando de entendimento entre as províncias de Maputo e de Mpumalanga, que estabelece áreas de cooperação para o período 2018-2023, com o objectivo de reforçar as boas relações existentes entre os dois países no contexto da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)”, explicou.

TESTEMUNHA VIVA

Elimon Makofane, residente de Waterval Boven, relata os factos de forma emocionante, como se estivesse a viver a tragédia de 16 de Novembro de 1949.

Conta que trabalhava num campo agrícola, nas redondezas, e foi despertado de que algo de mal havia acontecido ao ouvir o persistente som de sirenes, luzes e pirilampos de ambulâncias que perfilavam em direcção ao local do acidente.

“Quando cheguei ao local vi pessoas ensanguentadas e espalhadas no solo e outras ainda no interior das carruagens, para além de outras tantas que tinham sido cuspidas para uma distância considerável do comboio”, contou.

Makofane disse que esta é uma lembrança que o persegue porque é algo perturbador pela dimensão da tragédia que testemunhou.

“Toda esta área onde estamos estava cheia de corpos sem vida e por pessoas a clamar por socorro, foi um momento muito doloroso para mim e carrego comigo esta angústia”, confessou.

MEU MARIDO SOFREU INVALIDEZ PERMANENTE

Talita Matsinhe conhece a história do acidente através de depoimentos do falecido marido, Carlos Matsinhe, natural de Murrombene, província de Inhambane, sobrevivente da tragédia. Relatou que Carlos Matsinhe sofreu sequelas permanentes.

Matsinhe viria a perder a vida em 2016, na região de Bush Bucrischer, África do Sul, onde o casal radicou-se desde 1983.

A viúva relata que o marido havia sofrido nos membros inferiores e superiores, razão pela qual não podia continuar a trabalhar.

“O acidente rompeu a ligação do meu marido com as minas. Ele não teve indemnização e dada a incapacidade para a execução de actividade manual acabou dedicando-se ao trabalho de Deus, transmitindo a palavra da salvação”, narrou.

Para o efeito, Matsinhe fez o curso de teologia em Ricatla, distrito de Marracuene, província de Maputo, tendo viajado pelo país e países vizinhos e por fim radicou-se na África do Sul, até ao fim da sua vida, onde para além da viúva deixou filhos e netos.

WATERVAL BOVEN LUGAR HISTÓRICO E TURÍSTICO

Eugénio Langa, cônsul de Moçambique em Mpumalanga, disse que o Governo vai trabalhar no sentido de valorizar cada vez mais o local, promovendo a imortalização dos perecidos na tragédia.

Por isso mesmo a delegação moçambicana incluía a representação dos Transportes e Comunicações, do Trabalho, Emprego e Segurança Social e Energia e Minas.

O cônsul referiu que as causas da tragédia continuam por esclarecer, uma vez que os inquéritos realizados foram quase todos inconclusivos, tendo em conta que o infortúnio aconteceu na época do regime de segregação racial. Explicou que o desafio agora é planear a promoção e divulgação deste local histórico.

No encontro de cortesia entre as delegações dos dois governos ficou assente a necessidade do desenho de um plano comum para transformar o lugar em centro de convergência e atracção turística.

O plano visa reconhecer a coragem e dedicação dos perecidos que abandonaram as suas famílias para trabalharem nas minas durante muito tempo, sob todos os riscos.

Acredita-se que o plano ajude a imortalizar e honrar os perecidos por todas as gerações.

 

 POR: SAMUEL UAMUSSE

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