LEITURAS: Bouteflika, o africano

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PARIS, FRANCE - OCTOBER 12: Algerian Minister of Foreign Affairs Abdelaziz Bouteflika arriving at Elysee Palace with a message from Algerian President Houari Boumediene for French President General de Gaulle on October 12, 1965 in Paris, France. (Photo by Gamma-Keystone via Getty Images)

PAULO SILVA *

HÁ uma semana perdia a vida, na Argélia, aos 84 anos, Abdelaziz Bouteflika. Lutador pela independência, diplomata e conciliador, o ex-presidente argelino faz parte da história africana.

A intenção aqui anunciada exprime uma ambição considerável na memória colectiva africana que toca de maneira essencial o episódio de Abdelaziz Bouteflika, enquanto ministro do Negócios Estrangeiros da Argélia, que viu a sua consagração a partir da 29ª Assembleia Geral das Nações Unidas em 1974, na qual foi eleito à presidência da Assembleia por unanimidade.

Nesse encontro, ele não esquece as suas origens africanas e distingue-se pela sua maturidade. Numa voz límpida, afirma: “(…) Nada devia impedir a admissão de membros que se comprometam a respeitar as obrigações da Carta das Nações Unidas. Uma tal admissão não deve ser sujeita a nenhuma outra exigência, que a tornaria objecto de negociata ou de uma operação política. É o que acaba de acontecer, contudo, duas vezes, no Conselho de Segurança, para a admissão da República do Sul do Vietname e a República Democrática do Vietname. Que os Estados Unidos da América tenham explicado o duplo voto negativo pela sua adesão ao princípio da universalidade, merece talvez sublinhar, mas dificilmente precisa ser comentada. Pois, é pela referência a este mesmo princípio que os Estados Unidos se opuseram à suspensão da África do Sul, apenas para citar este exemplo particularmente significativo (…).”

Uma tomada de posição problemática, com a qual se expôs a uma sanção da Assembleia Geral que podia o desqualificar da presidência da sessão. Porém, foi fortemente aplaudido pela assistência, que o apoiava na sua abordagem. O regime do ‘apartheid’ foi excluído das Nações Unidas. Uma delegação sul-africana só voltaria à organização multilateral, quase 20 anos mais tarde,sob égide de Nelson Mandela.

Na mesma sessão, para lembrar, conseguiu obter o voto positivo da Assembleia sobre uma proposta referente a um convite à Organização de Libertação da Palestina (OLP). Aos 13 de Novembro de 1974, Yasser Arafat pronuncia, na ONU, uma alocução histórica que seria classificada entre os 100 discursos que marcaram o Século XX. Rende homenagem à Argélia, que descreve como nação portadora da tocha das causas justas e a Meca dos Revolucionários.

Este gesto representa claramente a época em que Abdelaziz Bouteflika falava pelos países Não-Alinhados, em geral, e pelos países africanos, em particular.

Na África do Sul, o ministério dos Negócios Estrangeiros não esqueceu este episódio do ex-Presidente Bouteflika e lembrou os laços entre os dois países num comunicado de uma grande generosidade.

“O destino decidiu fazer desaparecer Abdelaziz Bouteflika na (mesma semana da) abertura da sessão (anual) da Assembleia Geral das Nações Unidas para nos lembrar o seu papel importante e os seus sucessos diplomáticos, particularmente quando da sua presidência da 29ª sessão”, remarcou, com justeza, o ministro argelino dos Negócios Estrangeiros, Ramtane Lamamra.

“PRAZER DA INTELIGÊNCIA”

Deste ponto de vista, a análise mostra que a sua obra é feita grandemente da africanidade, cujo nome de guerra “Abdelkader El Mali”, reflecte uma presença maliana, mais exactamente em Gao, no norte de Mali, para onde a Frente de Libertação Nacional (FLN) o havia enviado em missão, e uma forte conotação revolucionária, feita de orgulho e de identificação aos símbolos africanos e onde a lenda já se forjava.

Em todo o seu itinerário, exprimirá de forma brilhante os talentos e o estilo do homem africano “dotado”, tornando seus os valores extraídos das mesmas regras desde o nascimento, nas matas, do Estado revolucionário argelino, referenciados sobre o respeito do direito internacional e o apoio às causas justas. Subtil e determinado, desperta rapidamente o interesse e o respeito de padres e conscritos de África e do Ocidente. Uma posição inscrita por longo tempo por Abdelaziz Bouteflika, mesmo entanto que ministro dos Negócios Estrangeiros (1963-1979), depois como chefe de Estado, 20 anos mais tarde.

No pódio, durante a 35ª Cimeira da Organização da Unidade Africana (OUA), realizada em Argel, Julho de 1999, com a participação de cerca de 40 chefes de Estado ou de Governo, os observadores ficaram maravilhados com o conteúdo de todos os oradores, que prestaram homenagem ao Presidente Bouteflika e no “regresso da Argélia à cena internacional”, descrito por um diplomata senegalês como “uma terra cheia de dignidade”.

E é sob sua proposta que a anulação de dívidas, num valor de 902 milhões de dólares detidas por 14 países africanos, é materializada, para realçar a amizade africana e sublinhar que este gesto concreto de entreajuda se inscreve no âmbito da solidariedade e ilustra a vontade política do governo argelino de assumir plenamente o seu compromisso a favor da promoção económica e social do continente.

No plano diplomático, evidentemente, o seu investimento é total. Ele cultiva as suas relações com grandes homens. Assim, o Presidente senegalês Léopold Sédar Senghor confessou, um dia,  que gostava muito de conversar com Bouteflika, “pois é um prazer da inteligência”. Com o antigo Presidente moçambicano, Joaquim Alberto Chissano, as relações são marcadas de profunda consideração. A mesma atitude foi igualmente reservada ao grande revolucionário Samora Moisés Machel.

PRESENÇA “INDISPENSÁVEL”

Entre as chaves do sucesso do seu ‘modus operandi’ está a sua capacidade de manter relações com amigos e adversários. Uma atitude tirada da cultura revolucionária. Assim, ele enviava presentes até mesmo para seus adversos, incluindo aqueles em pleno desacordo. Hoje, muitos acreditam que o falecido Presidente esteve na origem do degelo em muitas situações em África e que foi graças aos seus passos que as relações com vários países africanos se apaziguaram consideravelmente.

Ele trabalhou muito. Conheceu quase todos os formadores de opinião à escala africana, alguns antes de se tornarem presidentes. Graças a ele, a Argélia desempenhou os primeiros papéis na reconversão da Organização da União Africana em União Africana e no início da ideia da criação da Nova Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD), que iria tapar o fosso entre a África e o resto do mundo, e isto, na companhia do sul-africano Thabo Mbeki, do nigeriano Olusegun Obasanjo e do senegalês Abdoulaye Wade.

Sob sua liderança, como grande figura africana em todos os fóruns internacionais, e tendo em conta a sua experiência, vendo a sua autoridade, é extremamente importante sublinhar que os observadores assumiram que era “indispensável” a sua presença na mesa.

Este valor do ex-Presidente foi ilustrado pelo ministro Ramtane Lamamra que, recentemente, disse que Bouteflika “agora se tornou parte da história do seu povo, da África e da comunidade internacional”.

* PAULO SILVA é Conselheiro da Embaixada da Argélia em Moçambique

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