BETO é um homem multifacetado. Ele faz um bom proveito da sua aptidão para o trabalho braçal e não se poupa quando o assunto é fazer biscates e ganhar dinheiro. Não importa o tipo de trabalho que o é proposto, desde que seja do seu domínio.
Mesmo em situação de insegurança e/ou receio, ele arrisca-se a embarcar, no espírito “a frente é que é o caminho” e, muitas vezes, nessa sua curiosidade dá se muito bem. Do atrevimento e entrega ao trabalho, no qual se apelida “um indivíduo de ajeitar”, ele conseguiu consolidar a sua família, criando condições que, em circunstância diferente, jamais daria aos seus filhos e esposa.
Mesmo sem formalizar a sua relação perante o Estado ou a religião, respeita o conceito de família e conduz a sua em harmonia e em moldes de espevitar inveja, mesmo nos que têm emprego formal e sólido.
Numa dessas suas saídas, para o trabalho, teve que pedir dispensa na casa onde já tinha compromisso de marcar presença nos dias subsequentes. Hesitante, dirigiu-se ao seu patrão.
– Boss, tenho um pedido! Se me permitisse, gostaria de ter uma dispensa de pelo menos três dias, na próxima semana. Pretendo deslocar-me para a minha província de origem.
– Missa novamente? Questionou o patrão, pois o Beto, com alguma regularidade desloca-se à Inhambane, pelo menos uma vez por ano, para a realização de uma missa em homenagem aos pais. Fa-lo infalivelmente, pois acredita que esta seja uma forma de obter bênçãos para si e família que veio formar, bem longe dos seus, lá da terra do côco e tangerina.
– Nada disso Patrão. É um assunto não menos sério, de família e que ajuda a todos nós lá em casa.
– Mas a missa também é para o bem de todos vocês, de acordo com a sua ou vossa crença.
– Sim, mas desta vez o assunto tem que ver com o meu irmão mais novo, que decidiu constituir família. Ele vive cá, mas vai oficializar a sua relação com uma menina lá da nossa comunidade. Também teve que pedir alguns dias para a cerimónia de apresentação do noivo, na qual eu serei testemunho e representante do pai, que já não está entre nós.
– Sem querer me imiscuir na vossa vida, com tanta mulher que existe no meio onde o teu irmão cresceu e trabalha, porque motivos precisam de fazer uma viagem tão longa e desgastante para um lugar onde não mais vivem, senão unidos por via de antepassados comum?
– Patrão, como estamos numa conversa de cavalheiros, deixando a relação que temos de patrão e empregado, eu vou explicar uma coisa que dela ninguém me pode tirar da cabeça e, que continuamente tento inculcar nos homens da minha família, desde irmãos mais novos, sobrinhos e outros mais próximos.
Eles nunca devem assumir compromisso com uma mulher que não seja do nosso meio, nossa origem. Há, sim, tantas mulheres entre nós, mas não reúnem os requisitos ou qualidades como idoneidade e honestidade, que nos façam acreditar e considera-las ideais para levarem a nossa família a bom porto.
– Mas queres dizer que as mulheres daqui não são prestativas para constituir lar na vossa família?
-Em casa tem que ser assim, independentemente dos custos que isso possa acarretar, dos riscos que uma viagem longa representa. Uma coisa é certa e ninguém me pode fazer mudar: temos que assumir esse sacrifício.
Nunca o Beto tinha sido muito determinado e irredutível nas suas convicções, em todo o seu relacionamento com o patrão, que nada fez senão revisitar a Obra da saudosa Cantora Elsa Mangue “Ma Original”, para tentar perceber as motivações do seu empregado, na procura de uma mulher ideal….


