Belas Memórias: O peixe roubado com o nó de Tchumene às vistas – Anabela Massingue(anmassingue@gmail.com)

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A ABERTURA do nó de Tchumene, ligando a Estrada Nacional número 4 (EN4) à  “Circular de Maputo”, veio, para além de melhorar a mobilidade, resolver uma série de problemas desgastantes, que apoquentavam sobretudo os condutores que se faziam a vários destinos da província de Maputo, passando por Matola Gare.

Para além dos prejuízos que sofriam com a danificação das suas viaturas, uma vez que as condições de transitabilidade eram extremamente precárias, sobretudo no período chuvoso, os utentes viam a lista das contas a avolumar-se com uma série de serviços que forçosamente podiam precisar.

Pagava-se por tudo e mais alguma coisa, desde a sinalização das vias alternativas razoavelmente transitáveis até à força humana que empurrava os veículos. Qualquer indivíduo, com pretensão de amealhar algum, fazia-se à rua, bastando, ter uma pá ou enxada na mão, disfarçado de reparador da via para, em troca, cobrar.

Para os estranhos à zona, entre nacionais e estrangeiros, nunca faltavam os guias que calcorreavam os labirintos, quer a pé, quer de boleia, na bagageira, indicando o itinerário por via do espelho e, às vezes, num diálogo algo ensurdecedor.

Fazendo jus à máxima segundo a qual o inglês é língua do negócio, ali os acordos de cavalheirismo eram, às vezes, feitos em inglês, idem a explicação do itinerário, quando se estivesse diante dos falantes deste idioma.

Mas nada de tudo isto era obra de caridade. Nalguns casos o valor era marcado só no fim da viagem pelo guia ou então ficava ao critério do condutor.

O mais caricato, era ver até menores de 10 anos neste exercício por imitação aos adultos e, quem sabe, numa iniciação ao negócio. Estes, mesmo sem noção da tonelagem dos carros e da precariedade da via, dedicavam-se com afinco ao trabalho de guia, fazendo deste modo, crescer a cascata dos intervenientes que já tinham nas dificuldades dos outros, uma oportunidade para resolver alguns dos seus problemas.

Em tempos de chuvas torrenciais, muitos carros entre os de pequena e grande tonelagem, de carga ou de passageiros, ficavam atolados e a sua remoção implicava o desembolso de dinheiro para quem prestasse o serviço de reboque ou mesmo de limpeza dos obstáculos na via.

Estes contratempos aconteciam a qualquer hora do dia e com o risco de os infortunados sofrerem roubos, durante a operação de socorro. Mas era nas noites que as vias alternativas se revelavam menos seguras.

Os habilitados no roubo de viaturas também já tinham terreno fértil para assaltar as suas vítimas naquele troço, no período nocturno.

Era também nas noites que muitos amigos do alheio empoleiravam-se em viaturas de caixa aberta, aproveitando-se da marcha branda para retirarem os bens e porem-se a fresco, sem que fossem vistos pelos condutores. É que o ambiente envolvente era marcadamente de poeira, escuridão, solavancos que também produziam ruídos. Que o diga um colega meu, que muito recentemente, viu surripiada da sua bagageira, uma embalagem contendo peixe, que havia comprado na cidade de Maputo. Porque tinha que passar pelos labirintos, até alcançar a EN4, caiu nas malhas e o furto aconteceu numa das noites de Agosto último, bem nas vésperas do fim do calvário, marcado pela abertura, quinta-feira, do tão aguardado nó de Tchumene.

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