Belas Memórias: Vira a antena!

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ANABELA MASSINGUE (anmassingue@gamail.com)

A MIGRAÇÃO do sinal analógico de televisão para o digital só veio mostrar que, realmente, as coisas não são estáticas. Que o dinamismo pode mudar tudo para o pior ou para o melhor, mesmo o que se achava bom, num determinado contexto histórico: é a natureza da mudança.

Vem este introito, a propósito do desligamento do sinal de televisão analógico que, durante muito tempo, serviu a muitas famílias e que foi, nalgum momento, o “topo de gama” ao nosso nível, numa altura em que migrávamos de uma era sem televisão.

Quando a Televisão deu os primeiros sinais acredito que muitos de nós guardamos ainda as Belas Memórias do que acontecia: Poucas famílias dispunham de um aparelho televisor do qual acessavam os conteúdos informativos e não só, através do moribundo sinal analógico.

Nos dias de mau tempo, às vezes era para esquecer. Os chamados “fantasmas” e a “chuva” interferiam, suplantando as imagens em movimento que, teimosamente, tentavam aparecer no ecrã.

Eu e muitas outras pessoas da minha geração não tínhamos e nem sequer nos imaginávamos com um televisor dentro de nossas casas, mas, felizmente, tínhamos a sorte de ter bem perto de nós o senhor Muduardino Narandasse ou simplesmente o Dino, como é carinhosamente tratado.

Ele tinha na sua casa, para além do televisor, a majestosa antena que permitia acesso a conteúdos televisivos, muitas vezes com uma resolução aceitável e outras, nem tanto.

Alguns de nós tínhamos a consciência do constrangimento que a ida à casa de alguém sem que fosse por via de um convite causava, sobretudo quando implicava sentar-se na sua sala como se de visitante se tratasse, e ver televisão por algumas horas. Na minha família, por exemplo, éramos redondamente proibidos de o fazer, exactamente para não criar situações constrangedoras.

Mas estávamos na fase de gestão de incertezas, em torno da assinatura do Acordo-Geral de Paz em Roma, assinado, faz hoje, 29 anos. Chegará mesmo o fim da guerra por via das negociações? Poderemos voltar a viajar de férias para qualquer lugar deste país vermos e revermos familiares, alguns que nasceram e cresceram sem nos conhecermos, por medo dos ataques? Indo para casa do vizinho Dino poderíamos voltar com alguma ideia dessa possibilidade! A rádio dizia-nos muita coisa, mas não era suficiente. A curiosidade era também ver as partes a rubricarem o acordo, sobretudo um dos signatários, que ainda era desconhecido por muitos, incluindo-me.

Ai havia que se pedir permissão, com algumas horas de antecedência. Depois reunir coragem de bater a porta do vizinho que, felizmente, era uma pessoa afável. Chegado ao local, a ansiedade era ainda maior. Os olhos cintilavam em torno do ecrã.  

O sinal analógico que era na altura visto como topo de gama para nós os outros e que hoje vai à descontinuidade para dar espaço à evolução tecnológica, não favorecia, num desses tão esperados momentos.

Sempre havia alguém com a habilidade de escalar a pequena torre para determinar a melhor posição da antena, cuja luz verde era dada por quem estivesse do outro lado do interior da casa e aos gritos: Vire a antena! Agora para esquerda. Não, não! para direita, sim está bom assim e estava mesmo bom.

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