Cá da terra – A Paixão de Mafacitela

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Osvaldo Gêmo(osvaldoroque7103@gmail.com)

TUDO transformou-se num instante. O  que José vivera até então, de repente cessou. Deixou de existir o conforto e a luxúria em que vivia fazia anos. Como empresário, negociante de favores e de comissões, homem da bolada, era um dos homens mais proeminentes da cidade e espelho para a juventude que sonhava em riqueza e boa vida.

Quis o destino que José morresse depois de uma noite de gozo e fartura com os amigos. Caiu de bêbado nas escadarias e não mais recuperou os sentidos. Não conseguiu, na sua posse e grandeza, parar o relógio e fazer o tempo recuar. Nunca ninguém imaginou que a morte o rasteiraria daquela maneira. Mal pôde se despedir da família e de dar as últimas recomendações.

Grande e gordo, o seu caixão, teve que ser feito à medida para poupar os homens da casa mortuária na hora de fazer a última encomenda. Houve quem dissesse que seriam necessários dois caixões, um para o Zé e outro para o seu ego.

Dona Felícia, que acabara de saber do destino do ex-marido, chegou de uma viagem de cerca de 200 quilómetros, na companhia de Luciano, amigo de infância de Sr. Zé. Luciano chorava mais que Felícia, afinal tinha perdido um irmão.

“Que perda, que perda”, repetia Felícia, sacudindo as mexas, sem grande convicção, enquanto buscava consolo no ombro de Luciano.

A capela onde os amigos e familiares se despediram do José lotou e as pessoas invadiram o velório de Mafacitela, que decorria ao  lado, para eles era um morto desconhecido com quem não deviam ter intimidades.

Quis o destino que os dois se encontrassem na morte, pois na vida jamais se cruzaram. De um lado o Sr. Zé e do outro o Mafacitela, que a bebida e as mulheres erradas o tinham reduzido à um esqueleto humano, mais parecendo uma criança no seu caixão de madeira.

Os dois velórios começaram quase em simultâneo. No de Mafacitela  só lá estavam seis pessoas, a esposa, envolta em Mucumes, os dois filhos, dois irmãos e Magoda, o amigo.

“Quem é  o figurão da capela ao lado?” perguntou Magoda, meio envergonhado com a fraca afluência no velório de Mafacitela, que ele julgava que era merecedor de uma despedida do género, porque era homem  do povo, nasceu e cresceu no bairro de pessoas simples e trabalhadoras.

Um homem de cabelo desfrisado que acabara de chegar, começou a descrever Mafacitela com todos os títulos.

“Sabem quem jaz aqui? Este é Ezequiel Benedito Mafacitela, antigo deputado e obreiro da paz”, proclamou.

A notícia espalhou-se rapidamente. Sem saberem bem o que aquilo significava, as pessoas começaram também a afluir ao velório de Mafacitela. Afinal estavam a ser velados ali dois ilustres da nação.

Morgado, o homem de cabelo longo e desfrisado, circulava entre os grupos

enriquecendo a biografia de Mafacitela.

“Lembram-se do Magoda e do Mafacitela, os homens sem medo? Mafacitela, nunca vergou perante o inimigo e lutava em pé e era destemido. É graças a ele que temos paz”.

Ah, então é aquele Ezequiel?- parecia que alguns ainda se recordavam.

As pessoas passavam pelo caixão do Zé e depois do de Mafacitela e cumprimentavam as viúvas.

Mafacitela tinha ganho tanto prestígio que até o representante do Presidente do

Município passou por Dona Florência e sussurou- Que grande perda, a nação perdeu

um grande homem.

Dona Florência, esposa de Ezequiel Mafacitela, boquiaberta, abeirou-se de um dos

filhos e perguntou – Será que ainda é o meu Mafacitela que está naquele caixão?

Vieram as televisões e os repórteres dos jornais locais e Morgado foi entrevistado. Afinal se tratava de uma ilustre figura que estava ali na horizontal. A esta altura Mafacitela tinha mais pessoas do que o Zé.

Morgado comentou sobre a ingratidão das pessoas. Afinal um homem como aquele

merecia o salão nobre do município e só estava a ser lembrado na hora da sua morte.

Dona Florência, inconsolável, estava banhada em lágrimas, não acreditava que

estavam a falar do seu marido.

Pouco antes de fecharem o caixão, chegou uma coroa, era do pelotão da linha da

frente.

O enterro de Zé foi despachado. Todos se dirigiram, rapidamente, para o velório de

Mafacitela, a imprensa também, para não perder o discurso de Morgado.

“Dói saber que partiste para a eternidade, mas a morte é inevitável, inadiável e

necessária. A posteridade trará a justiça que a vida te negou”, proclamou banhado em

lágrimas.

Naquela noite, num dos becos do bairro, Morgado ainda cruzou com Catarina, amante

de Mafacitela, de quem estranhara a ausência no cemitério naquela manhã.

“Porquê não foste ao enterro do Mafacitela?”, questionou.

Catarina ainda tentou se desculpar e chorou, sinceramente.

“Como é que eu ia saber que ele era tão importante? Estava com o partido nas comemorações do Dia da Paz e Reconciliação”, disse banhada em lágrimas.

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