Cá da terra: Boas e más notícias

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Osvaldo Gêmo-osvaldoroque7103@gmail.com      

A HORA que escrevo mais este rabisco correm pelo mundo más e boas notícias. Comecemos pelas boas. É quase certo que nos princípios do próximo mês de Dezembro, o comboio volta a apitar nas linhas de Ressano Garcia, Goba, Limpopo e Sena, levando vida para milhares de pessoas que, de repente, ficaram sem o que mais amam – o comboio.

Aprendi o fascínio que é fazer-se ao comboio para uma viagem que te leva para o longíquo apeadeiro, se não for uma estação como tal. A cada apitadela a ansiedade de chegar ao destino aumenta e a cada curva vem o balanço. Mas é nas paragens que vimos o pulsar da terra e dos homens que, mesmo os que não pretendem viajar, vêm até ao comboio demonstrar quanto amor nutrem por ele. É a nostalgia, das partidas e chegadas, histórias e memórias, passados e futuros.

Por isso mesmo, o anúncio da retoma das viagens vem dar fôlego à  vida. Os comboios são também uma questão de atitude e de tradição. Quem consegue resistir a uma viagem da Beira a Inhaminga? E de Maputo a Ressano? As ferrovias  percorrem algumas das mais belas paisagens que se desenrolam como um filme à janela. Lá dentro o tempo é nosso, e não precisamos fazer mais nada a não ser estar. O campo é bonito.

A propósito, o romancista britânico Michael Frayn escrevia que “se um comboio for grande e confortável nem sequer é preciso um destino; basta um lugar de canto para se poder ser um daqueles viajantes que ficam em movimento, escarranchados em cima dos carris, e nunca chegam nem acham necessidade disso”.

Por isso mesmo, seja qual for a hora os passageiros estão lá. Aguardando. Que o digam os que vêm da Manhiça a Maputo, que às três tem que estar no trem. Vem o sino do chefe da estação dando ordem de partida. O destino de todos é maioritariamente para a cidade. Uns por razões profissionais, outros por questões de saúde, compras e os restantes porque precisam muito de espairecer. No entanto, há tantos outros, talvez os mais significativos, que levam os produtos do labor do campo para as cidades. É aqui que o comboio faz toda a diferença.

Os comboios são lugares extraordinários. Quem os frequenta assiduamente começa a identificar caras familiares e a tecer as suas possíveis histórias, sem as conhecer. Meros passageiros acabam companheiros de viagem. 
A ansiedade condiciona a disposição. Por isso desde que as carreiras foram interrompidas, devido à Covid-19, tudo no seu percurso diário murchou. Agora o comboio volta renovado, com mais carruagens, a cheirar à tinta, o que demonstra investimento, reciprocidade e vontade de alongar a relação com a gente e a terra. Certamente uma prenda de Natal para os utentes. 
Se aqui na terra os cenários são estes, lá para as alturas parece que tudo está ao avesso. A África Austral, no seu conjunto, incluindo Moçambique, estão proibidos de voar para a Europa.

Uma nova variante do novo coronavírus, denominada Ómicron, descoberta na África do Sul, ameaça não só a aviação, como também o nosso futuro próximo.

O pecado, pelos vistos, é o simples facto de ser vizinho da África do Sul?

O cenário que se avizinha é de um Dezembro e Janeiro de novas restrições, de praias, bares e eventos fechados.

Já nos esquecíamos do drama vivido por muitas famílias no pico da Covid-19, em finais de Janeiro e princípios de Fevereiro, quando os casos da doença e mortes repetiam-se.

Nos dias que correm o número de casos baixou consideravelmente, facto que alimenta a expectativa de regresso à normalidade, mas esta nova ameaça pode deitar por água abaixo todo o esforço de combate à doença e os ganhos alcançados até aqui, se medidas apropriadas não forem tomadas para conter comportamentos nefastos como os assumidos pelos cidadãos na quadra festiva de Dezembro de 2020.

A nossa maior desgraça reside no facto de ainda não termos aprendido bem a viver com a Covid-19 .

Por favor! Que a Covid-19 não venha nos tirar o que mais amamos.

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