Cá da terra: Sexta-feira-Osvaldo Gêmo(osvaldoroque7103@gmail.com)

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JÁ eram 23.45 de sexta-feira. Na barraca da dona Cacilda jaziam três vultos que se confundiam com a escuridão do lugar, pouco iluminado, por natureza. Jacinto, Luís e Morgado ali estavam desde às 16 horas, sem vontade de arredar o pé. Dona Cacilda ensaiou privar-lhes a bebida, debalde.
Jacinto propôs mais uma rodada, a última da noite. Dona Cacilda, encostada num canto da barraca, mal se aguentava de cansaço. Os convivas agora estavam aos gritos, cada um fazia o esforço de se fazer ouvir. Conversavam de tudo um pouco, política, música, desporto, etc. A paixão de Jacinto é o desporto. O conhecimento que ele tem sobre a matéria seria suficiente para defender uma tese, infelizmente, devido as amarguras da vida, não passou da quarta classe. Gaba-se de ter aprendido no tempo da tabuada e do José Maria Relvas.
Os companheiros sentem prazer da sua companhia, para o ouvir dissertar naquele seu fino português. Nesta sexta, Jacinto comemorava algo especial- a filha casava, no dia seguinte.
“Vá para casa Jacinto. Você não pode beber mais. Vá para casa, faça barba, tome um banho, descanse e vá ao casamento da tua filha bonitinha”, disse dona Cacilda.
A rodada foi servida. Na barraca da dona Cacilda não falta um bom uísque, com que os homens da zona gastam as parcas economias do labor diário.
Jacinto pagou mais uma rodada e pediu que dona Cacilda lhe desse também uma máquina de barbear.
“Vou fazer a barba”, vociferou, após o que se ouviu um protesto geral. Era uma loucura, Jacinto estava bébado, não havia espelho, não havia luz! Ele iria esfolar-se.
Ouviu tudo com desprezo. Pegou na lámina, molhou o rosto com uísque e foi fazendo a barba com naturalidade. Quando terminou, os companheiros já não lhe prestavam, atenção, senão dona Cacilda que reparou que Jacinto mal se podia manter de pé.
Arrastou aquele fardo pesado e o pôs a dormir na sua cama, na casa contíngua à sua barraca. Há muito que Jacinto e Cacilda mantinham uma cumplicidade, nunca antes desvendada.
Luís e Morgado sorveram os últimos goles e rapidamente desapareceram na escuridão da noite.
Jacinto perdera a esposa fazia anos e foi na dona Cacilda que encontrou o consolo da viuvez. Criou os filhos com sacrifício,valendo-se do ofício de carpinteiro. Ver a sua filha casar constituía uma benção, por isso achava-se no direito de encharcar-se no dia da sua maior felicidade.
Dona Cacilda perseverava apenas em oferecer-lhe a simples fidelidade, própria de uma mulher, e nada esperava em troca senão correspondência à sua fome de afeição.
Acordou sobressaltado e mal teve tempo de se despedir. Cacilda finalmente encontrara o sossego e dormia que nem uma mula.
Jacinto deixou de fumar há 14 anos, quando a esposa morreu, altura em que jurou que devia continuar vivo para cuidar dos seus quatro filhos   menores. Leopoldina, a que ia contrair matrimónio, era a última dos quatro irmãos. Os outros três, dos quais dois rapazes, também estavam bem encaminhados. 
Jacinto gaba-se de não ter simpatia política, vota por instinto nos candidatos mais ousados. Antigamente, para ele, era muito melhor que hoje. 
Acha-se, infelizmente é verdade, insubstituível no seu trabalho. Sem ele, a carpintaria não anda.
Desde que a esposa faleceu aprendeu a lição. É sempre o primeiro a chegar a enterros de parentes, amigos, conhecidos e dos vizinhos.
Quando do infortúnio, apenas meia dúzia de vizinhos é que o acompanhou, porque durante muito tempo andou apegado ao trabalho e dizia “deixem os mortos enterrarem os seus mortos”.
Caminhava sozinho por uma rua deserta e escura, quando teve a gélida sensação de que alguém ou algo o seguia. Voltou-se e nada viu. Prosseguiu a caminhada e foi como se a pessoa ou a coisa que o seguia tivesse se detido também, agarrada à sua sombra.
Tornou a olhar para trás e, desta vez, confirmou o pressentimento que tivera, descobrindo o seu silencioso seguidor. Era um cão. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Não tinha a ideia há quanto tempo o bicho se esgueirava atrás dele, e nem se trocaria o rumo. Seguia-lhe como se fosse o dono.
Por instantes teve medo do seu destino num dia em que a filha casava.
Sentiu o cansaço de ser homem e a morte a perseguir-lhe. Bicho miserável, fedorento. E não passava de um cão, humilde e manso, apesar de fedorento. Perseverava apenas em oferecer-lhe a simples fidelidade própria dos cães.
Pensou no Luís e no Morgado, talvez uma alma amiga que o salvasse.
Largou o pensamento da morte e buscou forças para completar a caminhada. 
Ao atingir a esquina, deixou-se ficar para trás, subitamente cauteloso, tenso ante a presença, do lado oposto da rua, de dois outros cães.
Jacinto deteve-se à distância, para assistir à cena. Os dois outros cães também o haviam descoberto e aproximaram-se do fedorento. Os três agora se cheiravam naquela intimidade canina.

Agora era ele o animal, sozinho na noite. Tinha de prosseguir, embora aos ziguezagues, no seu confuso itinerário de homem, e sem ao menos um cão. O pai e o avô de Jacinto morreram quase aos 90 anos  e ele o diz frequentemente.

Finalmente chegou à casa. O cansaço de ser homem, bicho miserável, entregue à própria sorte, depois de ter assassinado vários goles de uísque, na sexta-feira, veio ao de cima.

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