DE VEZ EM QUANDO – António Carlos do Rosário: também no senta-baixo

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Alfredo Macaringue

FOI na última quarta-feira que passei pelo “santuário” dos meus amigos, onde tenho ido de vez em quando. O que me levou a fazer isso, ao final da tarde, não era necessariamente a vontade de matar saudades. Foi um acaso.

Tinha ido acompanhar um amigo que me visitara em casa, e o caminho que seguimos levou-nos a passar por ali, no “Senta-baixo”, adega tradicional que fica mesmo na extensão da minha rua.

Avisei ao meu companheiro que iria passar, de regresso, daquele lugar e que havia de entrar. Ele espantou-se abertamente e perguntou-me se eu também frequentava sítios tão desanconselháveis. Respondi que sim, de alguma forma, porque aqueles senhores que estavam ali são meus amigos. Ele quis saber ainda se partilhava com eles aqueles copos imundos, e eu não respondi directamente, mas disse-lhe que eu tinha pena daqueles meus irmãos, por estarem num beco sem saída.

Na verdade, no regresso, depois de me separar do meu amigo, entrei por impulso e fui recebido, diferentemente de outros dias, com indiferença. Havia um debate acalorado, cujo tema central era António Carlos do Rosário, que é um dos réus a ser julgado neste momento na tenda da BO.  Era um debate que até tinha um “moderador”, que falava com autoridade, sobre a entrada triunfal no espaço prisional do antigo director da Inteligência Económica do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE).

Percebi que, no dia anterior, os meus amigos haviam assistido ao julgamento em algum lugar. Aliás, a minha suposição foi imediatamente esclarecida pela dona da casa, que havia tirado o televisor para o átrio, onde sempre tem-se bebido a valer, a um ritmo devastador. É por isso que todos, ou quase todos os frequentadores deste espaço, têm os rostos arruinados.  Cozidos!

Quando entrei, alguém fazia referência a um homem vestido de “laranja”, a entrar com o punho erguido, saudando aos presentes e aos jornalistas que cobrem o julgamento das dívidas ocultas. O “palestrante” que moderava o debate, visivelmente “tocado”, dizia: “viram bem? O gajo parecia Nelson Mandela a sair da cadeia”. Outro participante perguntou: “Mas quem é aquele ‘maltrapilho’? É chefe dos presos?” E no seio do grupo há quem respondeu: “Mas vocês estão preocupados com esses tipos porquê? Ainda não perceberam que estão a roubar-nos tempo?”

No meio daquela assembleia animada, mas silenciosa, há um que levanta a voz e exclama: “Meus irmãos, vocês dizem que eles roubaram o nosso dinheiro, qual dinheiro? Alguém tem conta no banco aqui onde estamos? Nem dinheiro para uma ‘garrafinha’ temos! Como é que vocês dizem que aqueles senhores roubaram o nosso dinheiro? Vão se lixar!”

Estas últimas palavras pareciam o remate final, porque depois mudaram completamente de conversa. Pediram mais bebida, para trazer o silêncio, que reina sempre naquelas circunstâncias, e, no dia seguinte, ninguém se lembra de nada. Nem querem se lembrar porque para eles não muda nada!

A  luta continua!

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