De vez em quando: Até quando a nossa “boiada”? – Alfredo Macaringue

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ENQUANTO a ferida estiver viva, falaremos sempre dela. Pior quando nos apercebemos que a sua cura é uma miragem, nem depois da nossa morte. Morreremos com essa ferida, que pode se manter viva mesmo depois de serem enterrados os nossos corpos. Esse é o meu receio, porque em cada momento, as pessoas a quem são confiados os remédios, não têm conseguido sarar a nossa dor.

São várias as equipas mandatadas, ao longo dos anos, para tratar esta ferida chamada transporte público na cidade de Maputo, e nenhuma delas, até aqui, mostrou-se com capacidade para a terapia. Tudo o que se tem feito parece um paliativo. Algo inseguro, sem alicerces para aguentar os abalos do crescimento demográfico, que se está a mostrar imparável.

Continuamos a ser levados como bois, sem dignidade. Apertam-nos na carroçaria. Unem-nos contra a nossa vontade. Perfilam-nos nos taipais, onde corremos o risco de cair sobre o asfalto. Humilham-nos. Insultam-nos. E nós, como verdadeiros bois cabisbaixos e conformados com a nossa desgraça, aceitamos tudo isso, sem fazer nada para dizermos que nós também somos pessoas.

Os próprios autocarros, importados de tempos em tempos, são autênticos estábulos, onde reina desordem e gritaria. Não se fala de lotação porque nas paragens há gente que não acaba. Em cada minuto há sempre alguém que chega. Cada vez que entra um passageiro no machimbombo, parece haver mais lugar, e o cobrador, para aferir essa afirmação, está sempre a dizer: “Museu-Vazio, Baixa-Vazio”. Goza connosco, e nós aceitamos isso, porque não temos como recusar. Ninguém nos acode.

Somos bois da terceira classe. Vivemos nesta “boiada” desde o dia 25 de Junho de 1975. Somos tratados assim mesmo, como animais irracionais. Incapazes de lutar pelos seus direitos. Pela sua dignidade. Levamos odores de outras pessoas para a nossa casa, todos os dias, como se isso fosse normal. Pisam-nos nos corredores dos autocarros. Pisam-nos nos “my love”. E se você reclama, ainda te dizem: “compra o teu carro, se não queres ser pisado” !

Há uma geração que nasceu na “boiada”, e vai morrer na “boiada”, sem nunca ter desfrutado de um sistema de transporte condigno. Civilizado. Mas há aqueles que virão aqui dizer: “esse assunto já tem barba branca, não vale a pena perder tempo com ele”. Porém, eu acho que vale a pena, sim, senhor. Mesmo para ver se alguém, em particular aqueles que são nomeados para esta área, esforçam-se um pouco mais por fazer algo, para sairmos definitivamente desta “boiada” !

A Luta Continua!

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