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Quinta-feira, 18 - Agosto, 2022

Limpopo: Finalmente, Mazucane! (1)

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César Langacesarlanga@yahoo.com.br

DISSERAM-ME os meus pais que nasci na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, lá para as bandas do bairro KaMaxakeni, na avenida Milagre Mabote, onde eles viviam numa casa arrendada, depois que saíram de Mandlakazi, na província de Gaza, à procura de melhores alternativas de vida, meses depois de se casarem. Mas a primeira investida para Lourenço Marques havia sido empreendida pelo meu pai, antes mesmo de se casar, após escapar à recruta para o Xibalo, quando frequentava a 4.ª classe. E foi nessa altura que começou a estabelecer as suas “bases”, trabalhando como empregado doméstico (por pouco tempo) e depois como trabalhador da fábrica de colchões Morfeu, ali mesmo na avenida de Angola, onde hoje funciona uma outra instituição que não vou citá-la, por razões comerciais.

Mas só a partir dos finais da década de 60 comecei a registar parte das memórias da minha vida. Ou seja, foi a partir dessa altura que “me dei como gente”, quando voltava da Beira, para onde depois o meu pai fora transferido, para uma outra fábrica, também de colchões, chamada Mobel, no bairro Esturro, perto da Munhava. Quando voltámos para Lourenço Marques, nos finais da década 60, o meu pai tinha cedido a casa, construída num terreno que havia comprado, no bairro de Mavalane, aos seus sogros, visto que o seu pai, na altura, trabalhador nas minas da África do Sul, mantinha o seu relacionamento “romântico” com o povoado de Chilumbele, no distrito de Mandlakazi, falando da antiga divisão administrativa da província de Gaza.

Não havendo espaço para nos alojar em Lourenço Marques, o meu pai decidiu que meu irmão e eu fossemos para Chilumbele, longe de toda a vida semi-urbana (ou suburbana, se preferirem), a que nos havia habituado, na cidade na Beira, onde ele era um dos assimilados. Mas longe de mim censurá-lo por qualquer decisão que tenha tomado.

Chegados a Chilumbele, foi um apagão geral! Não era possível visualizar uma lâmpada acesa, por perto. Nem mesmo na missão Mangundze, ou nas lojas, também de Mangundze, onde depois passámos a vender castanhas na loja do Gabriel, para a compra de algumas peças de vestuário, para o nosso uso. Para piorar o cenário, meses depois, o meu pai também voltou da Beira desempregado e preferiu fixar-se em Lourenço Marques, à procura de possibilidades de outro emprego, ajeitando-se na casinha de caniço de quarto e sala com o seu sogro e cunhados. Aliás, nem sei onde e como dormíamos, mas respeitava muito o seu sogro, que lhe conferiu o direito de ocupar o único quarto da casa.

Vale também referenciar, nessa altura, que nem mesmo a vila sede de Mandlakazi tinha corrente eléctrica, recorrendo-se, para a iluminação de alguns gabinetes da sede distrital e casa do administrador, que até era uma espécie de chefe do posto administrativo, se a memória não me trai, a um grupo gerador, com horário estabelecido. Aliás, para se ver uma lâmpada acesa, só no distrito de Xai-Xai, na altura, cidade de João Belo. Nem mesmo a vila sede do distrito de Chongoene tinha alguma fonte de energia eléctrica. Não vou arriscar-me a falar das vilas de Macia (Bilene), de Trigo de Morais (Chókwè) e de Chibuto, porque não tenho muita informação, mas a verdade é que grande parte do território de Gaza, antes da Independência Nacional, andava nas trevas, com as populações sem expectativas de um dia verem uma lâmpada acesa nas proximidades das suas residências. Tudo isto porque o colono português nunca esteve preparado para jogar limpo(po).

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