12.4 C
Maputo
Sexta-feira, 1 - Julho, 2022

Num Val Pena: Três horas detidos

+ Recentes

Leonel Abranches

O VELHO não resistiu à Covid. Setenta e dois anos depois, apesar da sua estoicidade e bravura nos campos de luta de libertação nacional, desta vez não resistiu a um inimigo invisível extremamente letal. Os filhos, já mais crescidos e altamente posicionados no mercado de emprego, apressaram-se a informar à família e amigos:

“O kota deixou-nos. Sabeis todos que por conta da pandemia e sobretudo por ter falecido vítima de Covid não poderemos ter todos familiares e amigos como gostávamos. Vamos em grupo restrito partir ainda hoje para Xai-Xai, onde vamos fazer o enterro.”

E o pequeno grupo partiu para Gaza. Uma viagem que, apesar do manto de profunda consternação e dor que envolvia a pequena comitiva, foi rápida, tranquila e segura.

A cerimónia, marcada para o dia seguinte, foi igualmente tranquila, mas bastante comovente. Apenas três irmãos, a viúva, um tio e dois primos directos marcaram presença no pequeno cemitério familiar. Recolhidos à casa, foram feitas as orações de praxe orientadas por um ancião da comunidade local. Uma hora depois já mais nada havia por fazer senão se recolherem todos num profundo e desolador silêncio. Até que de repente um dos primos quebrou o silêncio e propôs:

“Hedjó! O kota já bazou. Já não há nada a fazer. Só podemos ir beber uma geladinha aqui perto.”

“Hummm, não inventa você. Já viste que horas são?! Vão nos matrecar esses tipos dos mahindras. Melhor é mesmo bancarmos aqui.” – ripostou um dos irmãos que não estava nada disposto a sair de casa.

“Amigos, eu conheço esta cidade de lés-a-lés. Todos os cinzentinhos da praça são meus bradas. Vamu-lá, garanto-vos que não acontece nada. Tem uma esquina aqui perto, vou vos txunar umas pitas vocês. Vão gramar touvuszadizer…vamã bazar…” E foram. Arrastados pelo primo protector. Assomaram por uma espécie de discoteca informal. O som da música electrónica, o vozeirão e sobretudo o fumo e desfile de meninas semi-nuas eram a nota dominante. A bebida era sorvida em goles olímpicos. O pequeno grupo de irmãos enlutados não se fez de rogado e enturmou-se na malta. De facto o primo era muito popular. Por entre abraços e vivas à sua pessoa lá foi ele distribuindo charme e arrigementando rodadas e rodadas de cerveja. De repente o impensável aconteceu: uma brigada numerosa se fez ao local. Mais de oito carros da Polícia da República, quatro da Polícia Municipal e vários inspectores da Inspecção Nacional de Actividades Económicas bloquearam literalmente todas as entradas e saídas. Não havia escapatória possível. A música foi abruptamente interrompida e a confusão instalou-se. Fortemente armados os polícias foram recolhendo todos os convivas directo para um enorme camião, que entretanto foi requisitado. Minutos depois estavam todos no chão frio de uma esquadra a mais de quinze quilómetros da vila. E de nada valeram os impropérios e tentativas de extorsão. Estavam detidos.

- Publicidade-spot_img

Destaques