NUM’VAL PENA: BCI, afinal vocês são assim porquê?

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Leonel Abranches

UMA mensagem adentrou disciplinada pelo meu telefone. O conteúdo, simples e prático, convidava-me a contactar o meu balcão para aceder a um novo cartão, pois o anterior expirara o prazo: “o seu cartão BCI já se encontra disponível para levantamento. Contacte a sua agência. Se ainda não actualizou os seus documentos, traga consigo a documentação.” Duas questões assaltaram o meu subconsciente imediatamente: contactar a minha agência significa, necessariamente, dirigir-me ao meu balcão de abertura de conta? Outra questão: se não actualizei os meus documentos, devo levar comigo a documentação. Qual documentação? Decidi que iria dedicar a manhã de sábado para tratar disso. E como o último cartão tratei-o no balcão junto à minha zona de residência, se calhar o mais lógico era mesmo procurar por ele no mesmo balcão. Até porque na altura pedi que fosse feita a transferência de domicílio de conta para o balcão mais à mão. Ora, se assim pensei assim o fiz. No último sábado e às primeiras horas da manhã dirigi-me ao balcão perto de casa. Uma fila que não sendo enorme também não era curta fez-me perceber logo que o mais provável era passar a manhã ali. O solícito segurança tratou logo de perguntar de forma robótica:

“ – Atendimento ou depósitos?” – como se um balcão de um banco só tratasse de “atendimento” e “depósitos”. De qualquer modo fui na onda robótica do security:

“ – Amigo, só quero mesmo levantar o cartão…” – nem sequer olhou para mim e apontou para uma fila aparentemente mais curta.

“ – Vai prali” – e entregou-me uma senha com o número 24. Fiquei estarrecido. Caramba. À frente de mim ainda haviam mais 23 pessoas. Ainda assim dispus-me a seguir a fila. Duas horas e quarenta e cinco minutos chegou a minha vez. Outro segurança, este enorme e com os ombros largos típicos de um pugilista congolês, indicou-me com um simples o reservatório de desinfecção das mãos.

“ – Desafecta ali mais velho…depois vai ali no segundo balcão…” – olhei-o com algum azedume, começa a ser chato ouvir a tratar-me por “mais velho”….

 Dirigi-me depois da “desafecção” ao balcão onde uma simpática menina atendeu-me. Um minuto depois concluiu:

Caro cliente, o seu cartão não está neste balcão. Vá ao balcão onde abriu a conta.”

“Mas, minha menina, o último cartão tratei-o aqui. Mais ainda, na altura pedi que fosse transferido domicílio da conta para aqui…” – retorqui já irritado.

“- Não posso fazer nada. Vá ao seu balcão.” Concluiu peremptória. E logo a seguir esbramiu:

“Próximooo!” –  estava claramente a demarcar-se de mim. Não havia mesmo nada a fazer.

Segunda-feira, 9 horas e trinta minutos, fui fazer fila no balcão onde afinal ainda estava domiciliada a conta. Aqui foram rigorosamente mais de duas horas, perto de três horas de espera. Quando finalmente assomei ao balcão já o estômago reclamava de forma compulsiva o abastecimento em alimentação. A senhorita, com uma mão segurando o telefone ao ouvido e outra teclando qualquer coisa no computador, sem mesmo se dignar a olhar para mim perguntou:

“- Sim?! Faxavor?!…” – perante o meu silêncio, insistiu com um tom mais severo:

“ – Faxavor senhor…” –

“ – Desculpa senhora, é que não sei se está a falar comigo ou está ao telefone.”

Ela acusou o toque e retorquiu com uma falsa modéstia:

“…desculpa, era mesmo um assunto de trabalho…vem levantar cartão? O seu BI por favor.”

Passei o documento e trinta segundos depois veio a resposta, seca e cinzenta:

“Este cartão não está aqui. Está no balcão perto do seu serviço…” – não queria acreditar. Entre sábado e segunda-feira sujeitei-me a uma espera em fila de quase seis horas para ter respostas em trinta segundos e todas elas que não me satisfizessem como cliente.

“- Mas minha senhora, a minha conta esta aqui domiciliada e a mensagem recebida dava indicação de levantar na minha agência. E aqui estou…não percebo essa de o cartão estar fisicamente no balcão perto do meu serviço.” Insisti já com a cor castanha e cinzenta povoando a minha cara.

“ – Entendemos que assim é bem melhor para o cliente não ter que se deslocar para muito longe.” –  Confesso que na altura estava com ideias belicistas e com o verbo altamente ruidoso e violento. Segurei-me e kapatá kapatá kapatá…lá fui eu para o terceiro balcão em menos de dois dias à cata do meu cartão. Quando ali cheguei tentei explicar ao segurança toda a odisseia porque passei, a ver se me dava um tratamento diferenciado. O tipo não foi na lábia e sentenciou:

“- Já estou habituado a essas desculpas para não fazer a fila.“ Esticou a mão esquerda entregando-me uma senha. Suspirei e olhei para o número:

“ – 34….”

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