NUM’VAL PENA: O habitante do contentor 32

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O fecho do jornal prolongou-se pela noite dentro. O julgamento na tenda da BO não dava tréguas, o meritíssimo e malta Sheila Marrengula não paravam de espremer um dos réus na perspectiva de se saber a verdade sobre o taco que veio de Abu Dhabi. Entre as suposições de martelanços e as evidências do Ministério Público nós os fazedores da informação temos que ter paciência até o juiz do panque decidir mandar o pessoal para casa. Bem, nem todos vão necessariamente para casa. Alguns com vestimenta em tons laranja ficam-se pelo Língamo. Ora, a noite ia longa e porque o estômago entrou para uma espécie de motim, decidi descer pela 25 de Setembro da zona baixa da cidade de Maputo e ancorar no mais famoso “take away” da cidade e arredores. Funciona 24/24 e é muito procurado pela madrugada fora. Assomei pela janelinha e, do outro lado, um sujeito franzino com uma bata já a desistir da cor branca atendeu-me com um sorriso forçado.

“ – Um quarto de frango sem piri-piri por favor…” –  pedi, enquanto requisitava do bolso algumas notas envergonhadas do seu valor facial.

O tipo olhou para mim e pareceu-me que fazia uma autópsia.

“ – Porque não mamas logo um meio frango, não vais ´assaciar´. Com esse corpo todo….”

Não respondi. Olhei-o de soslaio e repeti soletrando com uma calma sinistra e sibilando cada uma das palavras:

“ –Um quarto de frango sem piri-piri sifasfavor…” – o tipo percebeu logo que não gramei nem tão pouco da parte “com esse corpo todo…” e deve ter notado que por dentro destilava os mais deselegantes impropérios. Menos de dez segundos depois já estava com o “quarto de frango sem piri-piri”, artisticamente embrulhado em papel de caqui. Já a bordo do veículo não me fiz de rogado e desatei a desancar as entranhas do galináceo condimentadas por um punhado de batatas caquéticas. Cinco minutos depois já só restavam ossos. Dei comigo a pensar:

“ – Porra, o sacana tinha razão, um quarto de frango não é nada mesmo…” – entretanto, o orgulho não me deixou voltar à janelinha, mas também as moedas já não ajudavam muito. Voltei a embrulhar os pedaços e ossos no papel caqui e aproximei-me de um contentor de lixo. Certifiquei-me de que o lixo estava muito bem acomodado e fiz menção de o depositar no contentor, quando, do nada, bem ao lado surgiu um rapaz. Corpo franzino e elástico, as mãos estavam estranhamente limpas e ainda assim trazia pendurado nas dobras do cinto um pequeno recipiente que deduzi ser álcool desinfectante. Os calções, longe de estarem sujos, mostravam que o tempo de uso já tinha ultrapassado o razoável. A camisola com o timbre do FC Barcelona há muito que tinha perdido a essência das cores daquele clube. A face, essa, não mentia: o rapaz só tinha mesmo “parencensa” de miúdo, pois os gestos e o palavreado agreste e cinzento denotavam longevidade na idade. A voz tensa e rouca remeteu-me logo para um facto: o gajo era tontonto-man. Era um emborcador de destilados de primeira. Com um gesto subtil mas suficientemente violento, disse:

“- Deixa essa cena comigo….” – era uma ordem em forma de pedido. Recuei estrategicamente segurando os restos de comida na mão.

“ – Mas amigo, isto é mesmo lixo, não tem nada que sirva para comer.” – Tentei explicar-lhe enquanto continuava a afastar-me sorrateiramente.

“ – Edjó, dá lá isso. Para ti é lixo, mas para mim é um banquete.” Caramba, o tipo era de uma higiene verbal espantosa. Infelizmente, o palavreado limpo e organizado não se coadunava com os gestos violentos que ia deixando transparecer. Tentei meter conversa mais amena e amigável a ver se nos entendíamos. Não me sentia confortável em oferecer restos de comida. Parecia- me humanamente absurdo e imoral.

“ – Fazemos o seguinte amigo, deixa-me dar um pulo até ali ao ´take away´ e compro um meio frango para ti. Um quarto de frango é muito pouco, não vais `assaciar´….” – disse-lhe parafraseando o gajo da janelinha.

“ – Não tou-te´a apanhar!” –  respondeu com um tom ameaçador.

“ – Vou te comprar um meio frango…queres com ou sem piri-piri?!” –  olhou sinistramente para mim e com as palmas das mãos em pose católica resmungou:

“ – Olhá-la tu, vátalixar! Eu não te pedi frango nenhum. Eu quero os restos e ossos que tens aí embrulhados. Isso chega para mim….” – e arrancou-me  o embrulho de caqui com restos de comida.

“ – ´Tás apanhado cachola ou quê!? Baza daqui! Sai da minha casa. Não quero teu frango eu, mazamera de um raio”

“ – Como assim sair da tua casa?” – perguntei estupefacto.

“ – Afinal estou na tua casa? Onde vives tu?!”

“- Eu vivo aí mesmo onde tens os teus pés. Vivo aqui onde vocês vêm todos os dias dar-me de comer. Eu sou habitante do contentor 32.”

Leonel Abranches

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