NUM’VAL PENA: O psicopata!

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Leonel Abranches

O bar estava às moscas. Pouquíssima gente. Aliás, o vilarejo era de uma pasmaceira impressionante. Não acontecia nada. As ruas eram desérticas e, por entre os quintais entrelançados por muros acnes e cinzentos, apenas se via uma dúzia de pivetes brincando ao ritmo da pasmaceira da vila. Brincavam entre si sem qualquer emoção e os rostos empedernidos mais pareciam cidadãos stressados com o alto custo de vida.  Um e outro funcionário dos serviços distritais transitava pela única e esburacada estrada fazendo ronronar motorizadas chinesas de marca Xintian. Estranhamente quase todos tinham um Xintian no distrito. É como se fosse uma peste chinesa. Um Mahindra cabina simples, da esquadra local, uma ambulância com os sinais vitais quase em falência total e uma Nissan Hardboy de cabina dupla e matrícula vermelha, ora pilotada pelo administrador, mas às vezes pela primeira dama distrital ( diz-se que o filho mais velho, sempre que volta de férias da cidade capital, é visto ao volante também), eram as únicas viaturas com “estatuto” e rivalizavam entre si quando garbosamente se entrecruzavam, pois pairava no ar a ideia sobre quem tinha prioridade: O comandante distrital da polícia, a ambulância ou o senhor administrador distrital? Uma espécie de legitimação de prioridade social.

Felizmente durante aquela semana a vilarejo recebeu dois importantes eventos. Algumas bandeirolas multicolores foram desfraldadas ao longo da única estrada, as árvores foram podadas e banhadas com cal branco, os edifícios da administração e da repartição dos serviços distritais de saúde tiveram os seus anexos limpos. Duas importantes reuniões iam acontecer à mesma altura. Havia algum rebuliço à volta do pequeno e simpático hotel de apenas dois minguados andares. No final do primeiro dia do conselho consultivo de uma das instituições um grupo restrito juntou-se no pequeno bar do hotel. Na mesa ao lado outro grupo já estava no maior informal e em fase adiantada de consumo de bebida e petiscos locais. A conversa já ia mais solta e a vozearia era um indicativo claro de que os ponteiros de marcação dos níveis de álcool no sangue estavam a atingir uma fase de ruptura. Um deles, o mais afoito de todos e quase sempre falando com o dedo em riste, com a barba por fazer e sem qualquer cabelo povoando o couro craniano, dirigia a conversa com uma desenvoltura impressionante. O papo girava à volta do tipo de relacionamento que cada um deles tinha com a sua cônjuge. O tipo ia dizendo com uma certeza franciscana:

“Eu não admito brincadeiras djó. Na minha casa o galo sou eu. Aquela não tem palavra. Eu mando e comando na minha casa. Minha mulher chegar depois de mim à casa eu posso lhe esticar muito mal….” – e bramia violentamente as mãos como se tivesse sido acometido por uma súbita descompensação gastro-intestinal.

Os colegas acusaram o toque e gerou-se um repentino mal-estar.

“Mas amigo, nem tudo num relacionamento se resume em mandar e comandar. Um casal que se preze como tal deve viver em comunhão de ideias, isso é básico para uma boa e duradoura relação” – tentou descongelar a atmosfera um colega, por sinal mais novo.

“Você não sabe nada da vida puto. A vida vai te mostrar que não se deve dar muita bola às mulheres. Minha mulher não trabalha porque não quero. Deve trabalhar para mim. Quando chegar à casa devo encontra-la disponível para mim em todos aspectos. Isso de esposa sair de casa para ir trabalhar onde tem muitos gajos e depois pavonear-se para o chefe lá da repartição é coisa de brancos que vocês andam a imitar e a imitar muito mal….porra!” – os olhos brutalmente arregalados estavam literalmente quase a abandonar os dois orifícios da cara. O homem estava possesso e a transitar para um quadro mental que roçava à loucura.

O ambiente começou a ficar tenso, principalmente porque alguém do outro pequeno grupo de funcionários públicos sentiu-se na obrigação de intervir:

“Quero piamente acreditar que o colega não está a falar a sério. Não pode ser verdade que assim pense….”   

“Senhor, onde você entra na organização da minha vida de casado na minha casa?” – retorquiu o visado já com uma garrafa de “Manica” viajando entre a cavidade bucal e aterrando de forma violenta no tampo da mesa carcomida de madeira prensada. Era quase certo que daí até à reacção mais musculada e violenta do homem era apenas uma questão de segundos.   

“Se tua mulher é fonte de apetites no serviço dela é teu problema esse. O corno és tu. A minha só sai de casa quando for estritamente necessário. Mesmo às compras vou eu.”

“Hedjó, colega, também não precisa ofender-nos. Cada um de nós sabe qual é melhor estratégia de convivência em casa. Ainda que não concorde com o teu posicionamento, vou respeita-lo. “ – interviu o colega mais novo visivelmente contrariado.

“À minha mulher sei como trato. Não tolero essas vossas fofuras ocidentalizadas. Se for preciso tranco-a em casa o dia, a semana ou o mês todo. É minha. Lobolei. Paguei e não tenho qualquer dívida. Vão-se alixar todos vocês. Cambada de cornos alienados. ” Virou-se pegou na garrafa de “Manica” e sumiu esbracejando os braços e expelindo impropérios pelas ventas.

Um dos colegas, por sinal dos que menos se interessou pela conversa atirou:

“Vocês também….não conhecem aquele gajo? Quando bebe fica assim mesmo. É um psicopata o gajo.”

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