NUM’VAL PENA!: O Tubarão

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Leonel Abranches

DE repente já não anima dar um mergulho pela praia de Inhambane. Não vale a pena. Anda por ali um tubarão zangado, e com sinais de uma obesidade mórbida, a desancar quem lhe aparece pela frente.

Não tem meias medidas, mas tem as ventas desmedidas. Provavelmente chateado com outra malta do seu “habitat” vai daí que resolveu, assim meio furibundo, afiar as poderosas mandíbulas para “mordiscar petiscamente” todo o ser que lhe aparece pela frente. Os primeiros protagonistas do enredo com o tubarão não foram levados a sério. Foram emboscados pelo tubarão vindo de parte incerta e alertaram a quem de dever. Debalde. Ninguém moveu palha. Num outro cenário, provavelmente com o mesmo bicho, um grupo de pessoas vindas de europas frias e “turistando” pelas águas retemperadoras da baía de Inhambane sentiu o calafrio desenhar-lhes as espinhas quando o poderoso ovíparo abalroou o seu barco de recreio. Fugiram a muitos pés e juraram não mais cirandar por ali. O tubarão “armalhão gramou da cena”, recriou o seu espectáculo e resolveu passar da petiscaria para um banquete com contornos dramáticos. Num exercício de coragem esgueirou-se sorrateiramente pela praia e degustou uma incauta pescadora. Outra conseguiu alcançar a margem onde fez soar o alarme: estava ali algures pelas águas límpidas da praia um predador com ideias mal alinhavadas que andava a comer gente sem mais nem menos. E ficou a ideia no ar: afinal de contas havia mesmo um tubarão mal-educado por ali. Já era oficial. O SOS foi lançado. Os avisos foram circulando de boca-a-boca, assim como um conto de tradições orais. Não há mais praia para ninguém. Inhambane está em polvorosa. O povo agora racionaliza sorrisos. Há uma espécie de tristeza a saldo. Está todo o mundo com medo do tubarão. Até parece que se vai “fantasmar  e assuntar” pela cidade dentro numa noite de cacimba. Contudo, a olho nu nota-se algum frenesim na procura de soluções. O turismo está por um fio. Os pescadores que emprestem por tempo indeterminado as suas redes à terra. É preciso deter e eliminar o inimigo. Pôr ordem no mar, que afinal o Homem não está para ficar refém de um mal intencionado mamífero pesando toneladas e transportando no seu estômago, em fase digestiva, sonhos destruídos. O problema começa mesmo aí: como eliminar o inimigo, que se faz passear impávido e sereno pelo seu aquático quintal, à espera de um humano que se faça à água? Teremos gente preparada? Como se faz isso? Como se caça e elimina um inimigo invisível, mas pesando toneladas e esgueirando-se felinamente por entre corais a muitos metros debaixo da água? E que de vez em quando vem à tona para escafiar a vida de uns tantos quantos humanos? É preocupante. A televisão mostrou-nos um rapaz espadaúdo e com atléticos bíceps alongados por uns triceps descomunais e com ar de cantor reggae, que nos trouxe alguma esperança. Disse-nos que era especialista de há muitos anos mergulhando por mar abaixo. Disse-nos também o que pensava sobre o assunto. Trouxe à ribalta ideias. Achei interessante. Afinal temos mergulhadores experientes. Tudo bem. Entendo mesmo que o assunto afinal é de sua competência “mergulhativa” e que requer a sua comparência em quintais tubarónicos. O meu problema é: como vai o nosso rapaz reggae-man “se enfrentar-se” com o bichano? Não me parece que seja uma boa ideia descer pelo mar dentro com um pelotão da intervenção rápida, armado até aos dentes. De certeza que AKM e treino musculado de Matalane não resolvem tamanho imbróglio. À cacetada não vai dar nada. Os experientes pescadores locais pediram “luz verde” para avançar e garantiram: “Só precisamos de cinco ´dias mais velho´. Vamos eliminar esse gajo, juro cinco chagas.” Dito assim até fiquei com pena do tubarão-assassino. Parece-me que tem os dias contados. Esperemos que assim seja e sobretudo que depois de corajosamente eliminado não venha a família toda: mãe, padrasto, filhos, enteados, tios netos e vizinhos, com ideias de vingança.

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