Sigarowane: Doce trama

0
171

Djenguenyenye Ndlovu

COZINHAVA-SE debaixo de uma das mangueiras grandes, fazia já algum tempo. Pensou que ia ficar no parô e não fez. Tivesse o feito, ter-se-ia apercebido do movimento debaixo da mangueira, o que deitaria por baixo a trama. Doce trama.

E a noite foi passada no ar. Já no solo, ainda não é alcançada a hora sete. Mesmo considerando a distância até à casa, ainda pode dar para hora e alguns minutos na cama,feito o necessário e presumivelmente rejuvenescedor duche, antes de entrar nos compromissos de há dois dias, estava ele a bem mais de oito mil quilómetros de distância. Sairiam às oito  horas e trinta minutos. O telefone tocou justo às oito horas,mas do toque não se apercebeu. Um pássaro, de dimensões não pequenas, embateu no vidro da janela junto à cabeceira da cama. O forte som do embate fê-lo despertar assustado. Virou-se para a mesinha, e reparou no registo de chamada não atendida no pequeno ecrán. Era esperada a qualquer momento, para a efectivação do compromisso. Os músculos clamavam ainda por mais tempo de ócio para alguma recuperação e então não retornou a chamada, deixando tal para mais tarde. Na verdade, não via urgência no assunto para que não pudesse ser tratado no dia seguinte ou mais tarde ainda.

Já de pé,mas não totalmente refeito, pegou nas chaves de carro e fez-se ao quintal. Junto do carro e o motor deste posto a funcionar,recordou-se que o Manuel dissera que iriam no carro dele. Ainda assim deixou o motor a ronronar por uns minutos.

Segurando a porta aberta do carro, olhou para a goiabeira que está do lado norte do quintal. Muita pera desejosa de dentada. Quando ia dar um passo naquela direcção, do nada apareceu  o Tino que disse,já correndo, vou tirar papá.  Pensou em ir parar ao parô,mas não o fez. Esperou pelas peras na cozinha junto à banca-lava-loiça. Ele mesmo lavou duas e comeu-as, ali mesmo,o que causou alguma estranheza aos circunstantes. Retirou-se depois para a sala onde passa o seu tempo de leitura e, nalgumas vezes, na conversa com amigos à volta de uma garrafa qualquer chegada por quaisquer mãos, de um tema filosófico que termina assim mesmo. Filosófico. Na mesinha que está do lado direito do sofárepousam dois livros, um deles, de Mohsin Hamid, interrompida a sua leitura passam quinze dias. Mas não seria aquele o dia da sua retoma.

 Ali fica, á espera. Vê abrir-se a porta de entrada e o Manuel a cruzá-la. Deixa-o seguir para as traseiras e pela cozinha adentra-se. Percorre-a, depois o corredor que o leva à sala chamada de comum e, finalmente, junta-se ao chegado do dia,na sua pequena sala.

A saudação no estilo destes dias,cotoveladas e socos, enquanto o Osvaldo despeja na mesinha do centro dois copos e uma garrafa. Pratinhos com alguns comeres. Minutos depois estavam de pé e saíram da casa pela cozinha. Deram a volta e caminharam até atingirem o portão. Ele tinha deixado o carro fora.

Meteram-se na estrada e apelaram para que houvesse coluna para aguentarem a estrada que leva a Mafavuka.Numa cantina,pouco depois de um controle, pararam para comprarem do bom tinto e seguiram o caminho. Não tardou que o chegado do dia fosse tomado pelo sono, despertando já no cruzamento de Goba. Quando já não havia como sofrer. Era estrada de verdade. Ia melhorando o seu estado físico e pedia água porque precisado. E não tinham no carro.

No sítio do Rui,que fica mesmo na estrada, compraram duas garrafas de água, de litro e meio cada.

A pouco mais de cem metrosmeteram-se por uma picada na direção Este. E pronto. Tudo o que vira nas fotos que lhe mandaram e nada mais.Percorreram os duzentos metros nos quais foi feita a remoção da pedra e não ficaram muito satisfeitos com o trabalho, pior ainda . O valor pago.

O trabalhador, que pouco faz, de dentro de casa trouxe duas taças e colocou-as por cima da mesa, que já foi branca. A olhar para o monte de pedras e de blocos, começou a ouvir o relatório, ao mesmo tempo que ia sorvendo, a pequenos goles, do etílico. E depois foi o regresso muito sofrido porque a fome já governava,de verdade.

Muito carro estava estacionado muito próximo à casa. Reconheceu um e mais um. Eram de pessoas de frequência regularíssima e naquele dia àquela hora… o portão abriu-se e notou que o carro tinha sido movimentado. Depois uma lona e…

No ar, o parabéns a você.

 E a data se tinha mandado há quinze dias. Há as cotoveladas em ambiente de família, filhos e netos. E, finalmente, a tanto ansiada comida de casa.

Saída debaixo da mangueira grande.

+ posts

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here