Sigarowane: Election Mugabe

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Djenguenyenye Ndlovu

O GENAS estava com o Fernando e mais um, sentados à volta de uma mesa, no Naval, naturalmente que a chupar desalmadamente. Era meio de uma tarde. De uma tarde quente, que nem o mar mandava brisa fresca para aquela esplanada com um número razoável de mesas vazias. Com a piscina, bem precisada de nadadores. Só devia ter lá três pessoas, ou pouco mais em preguiçosas braçadas. Também era dia útil, de trabalho, como se houvesse dia que não seja de trabalho.

De chegada recente do Zimbabwe, onde estivera integrado numa missão da UNESCO de avaliação das condições físicas das escolas e outras coisas nada de imaginar, visitou, ele e a equipa, integrando vindo de Paris e de Salvador, para além da Universidade, uma porrada de estabelecimentos de ensino.

Visitaram quinze escolas, fazendo levantamentos, até das condições de segurança, reunindo-se com as respectivas directorias. São escolas no meio do nada, mas que depois se apercebe que tem uma frequência de mil e duzentos alunos, por exemplo. E depois fica a pergunta: donde vem estes alunos? Não importa a resposta. A verdade é que estão lá, sentados nas salas de aula. Nesse meio do nada, escolas com, por exemplo, quinze edifícios, que não deixam entrar friozinho nenhum tão-pouco um pingo de chuva que incomode menino algum.

Os meninos todos bem uniformizados e limpinhos, e não se encontra professor que não esteja engravatado.

Diz Genas da sua alegria ao notar que no final das aulas, os alunos fazem a limpeza nas salas e no pátio. “Aquilo foi uma Aventura”. Horas e horas, dias e dias de carro ao serviço do futuro.

Um riozinho, ali no Chimanimani, separa Moçambique do Zimbabwe. Mas isso é apenas nas cabeças da gente. Não há fronteira nenhuma. Aquilo é tudo Shona.

Então numa escola perto de um riozinho, Genas conversando com o director perguntou a este se as pessoas atravessavam o riozinho de um lado para o outro. Com um sorriso nos lábios, o director disse que alguns dos estudantes eram do outro lado do riozinho. De Moçambique. Atravessam em pequenas embarcações, ou mesmo a pé quando o rio baixa de caudal. Para a travessia, os estudantes têm de pagar pelo transporte. E não há mais nada.

Circulando pelo pátio na companhia do director, o Genas avista um rapazito de seus…por aí doze anitos. Cumprimenta-o em português. O pequenote não entende nada dessa língua. Só inglês e shona, com ele. Então pergunta pelo nome dele. “Election Mugabe”, é o seu nome. Genas teve medo de rir, mas o faz agora contando o episódio. “Election Mugabe”, nome do garroto…mas a estupefação passa logo. Abundam, por estas paragens, nomes não imaginados em humanos.

Da carteira tira uma nota, novinha, de mil meticais. Mostra-a ao menino, mas este não reconhece sequer a imagem gravada na nota. Dobra a nota e a mete no bolso da camisa do menino. O director bem maravilhado com o gesto disse “foi uma grande ajuda que acaba de dar ao “Election”. Não terá de se preocupar com o transporte por muito tempo.

E a gargalhada foi colectiva, mas…aquele menino quando adulto com o seu nome…

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