Xigoviya: A educação e justiça por Zacarias Mahaway

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Artur Saúde

EM Junho de 2010 entrevistei, pela última vez, Zacarias Mahaway, pouco antes de morrer quatro meses depois. Nessa conversa exploramos a significação de dois conceitos de “educação” e “justiça” a partir da sua forma de ser e estar. A educação reflectida por meio do conhecimento prévio e das experiências individuais transmitidos por várias manifestações artísticas como a poesia, o canto, o “xithokozelo”, a dança, o conto, advinhas, provérbios, entre outras que Mahaway melhor sabia fazer na sua língua materna, o Xichangana.

Numa dimensão mais ampla, observou que, em qualquer convivência sã e social, era imprescindível o suporte do diálogo por mensagens culturalmente valiosas e éticas em todo o processo de interacção social. O pressuposto dessa convicção é o testemunho do seu legado manifestado em seu livro intitulado “ Contos e Poemas: Minkaringani ni Svithokozelo” que a “Promédia” publicou em 2003, na capital do país, no qual se revela como criador de seus próprios contos e poemas de tradição oral. Soube também que, muito antes, Mahaway participara activamente na recolha duma vastidão de textos de tradição oral em língua “Tsonga”, nas províncias de Inhambane, Gaza e Maputo, sul de Moçambique, que foram organizados e sistematizados em pequenas brochuras de provérbios, advinhas, contos e poemas tradicionais depositados na sede da Associação dos Aposentados de Moçambique (APOSEMO). A ideia era que fossem aproveitados para a elaboração de materiais de ensino e aprendizagem escolar, mas que, infelizmente, tais materiais não foram adequadamente aproveitados nesse sentido. Com alguma mágoa, Mahaway dava o seu sinal de “aviso à navegação” para que as instituições de direito tomassem a iniciativa de resgatar a preciosidade destes

recursos, como forma de não se correr o risco de se perder este espólio se não se fizesse nada nesse sentido. O Instituto Nacional de Património Cultural e o sector da Educação eram chamados na redefinição de acções concretas para a recuperação e valorização deste material de modo a se flexibilizar e a se ajustar os currículos de ensino e aprendizagem às características reais da nossa sociedade, eminentemente de tradição oral e com a maior parte de falantes nativos de línguas de origem bantu e com o português como língua segunda. A tradição oral sempre teve um importante papel na cultura africana. A maioria das informações culturais, sociais e ancestrais era transmitida oralmente, de geração em geração. A tradição oral em África conta com quatro principais canais de veiculação e perpetuação das informações que são a música, a história, os contos e os provérbios e, de um tempo para cá, tem-se feito um grande esforço para documentar a parte que faltava da história africana. É por essa razão que, para Mahaway, a valorização das tradições orais era um elemento importante no estabelecimento e transmissão geracional de princípios ético-morais.

Noutra dimensão, o conceito de “justiça” foi explorado com base em revelações de Mahaway sobre a sua situação profissional na Rádio Moçambique (RM) onde ingressou através dum concurso público para vaga de locutor em 1975, no Emissor Provincial de Maputo. Entrou como locutor auxiliar até 1980 quando passou a locutor principal, tornando-se, mais tarde, coordenador de emissão. Ele não gostou da “promoção” porque o seu interesse foi sempre pela locução, agravando a sua insatisfação por ter finalizado a sua carreira como “redactor musical”, escalão que, a seu ver, só lhe prejudicou na sua reforma, em 1992. Mergulhado na sensação de injustiça, interpôs um recurso junto ao então Primeiro-Ministro, Pascoal Mocumbi e este remeteu o mesmo à Direcção Central da RM para a reposição da “justiça” o que, de acordo com ele, nunca mais aconteceu. Se calhar tenha sido por isso que me procurou para ceder a entrevista dentro dum clamor que foi de que “quero falar, quero dizer coisas que nunca disse”. Depois de conduzir a entrevista, elaborei o texto que enviei à Redacção do jornal “domingo”. Entretanto, no sábado anterior à publicação

do texto no jornal, Mahaway ligou-me pedindo que suspendêssemos temporariamente a publicação, visto que a sua esposa tinha adoecido e que a RM se tinha encarregado da assistência médica necessária. Na sua opinião, seria embaraçoso que o texto se tornasse público nessa altura, receando-se que o seu impacto pudesse ter efeitos negativos no seio familiar. Seja como for, as duas dimensões, nomeadamente, a educativa e da justiça configuram o perfil dum homem de nobreza que se aglutinam perfeitamente em Zacarias Mahaway. Ou seja, um homem que foi transmissor duma educação provinda do seu conhecimento prévio e da sua experiência individual e que fez transparecer a sua virtude por meio da justiça: uma dimensão que sempre teve

um assentamento louvável nos seus princípios e valores ético-morais.

Mahaway tornou-se, quanto a mim, num símbolo de “educação” e de “justiça”, com respeito ao próximo e à mistura, muito respeitado. Mahaway foi gestor do Centro de Alfabetização de Chissano, em Bilene. Sem dúvidas, foi um catalisador geracional. Morreu a 6 de Outubro de 2010. Que a sua alma continue a repousar em paz, junto do Senhor!

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