Xigoviya: Cardeal Dom Alexandre: Um justo herói religioso

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Artur Saúde

A MORTE do Sacerdote, Bispo e Cardeal Dom Alexandre Maria dos Santos suscita-nos uma profunda reflexão e contínua da nossa forma de estar e de ser no mundo, a partir do seu próprio exemplo de vida. Se calhar seja por isso que ao longo da sua vida tenha colocado o seu acento tónico na promoção da “educação” e da “saúde” sob a saga do lema eclesiástico de “Servir e não ser servido”, imitando, deste modo, o exemplo de Jesus Cristo, o Salvador da Humanidade, que veio ao mundo para servir e não ser servido. Não há dúvidas que a vida deste grande Sacerdote, Bispo e Cardeal se confunde com a História da Igreja Católica em Moçambique, arvorando-se, assim, numa figura incontornável e de referência na História de Moçambique. Foi um nacionalista que lutou pela igualdade, dignidade e pacificação entre os homens. Foi um óptimo e grande Pastor espiritual, um grande Conselheiro e um enorme educador na isotopia de servir o próximo, o seu país e o mundo em geral. Lembro-me, isso já num contexto sociopolítico, que John Kennedy, em 1961, ao assumir a presidência norte-americana, incentivava o patriotismo e atitudes de serviço para o bem dos outros, afirmando que “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.” Nessa altura acreditava-se na ideia de contribuir para se melhorar as circunstâncias dos concidadãos e numa situação em que as noções de “certo” e “errado” dominavam os discursos da política, da ética, da moralidade e da religião. Infelizmente, ao longo das últimas décadas, o foco vem mudando. Benefícios para o indivíduo se tornam mais importantes do que o bem dos outros. Sentimentos e desejos tomam lugar de deveres e responsabilidades. A disposição de fazer sacrifícios para ajudar outros é substituída pelo egoísmo de gratificação. O julgamento na Cadeia de Máxima Segurança, em curso em Maputo, Moçambique, sobre as dívidas ocultas, é um nítido exemplo disso. Isso faz com que uns dos grandes desafios actuais seja o de confrontar a competição entre o dever e o desejo egoísta. E o Cardeal Dom Alexandre Maria dos Santos mostrou-se como um grande herói religioso na busca da igualdade, dignidade e justiça. Preocupado com a paz em Moçambique, veio a integrar a Comissão inter-religiosa de membros da Igrejas Católica, Presbiteriana e Anglicana, em Moçambique, que se deslocou aos Estados Unidos da América a procura de um possível interlocutor válido que possibilitasse o estabelecimento de um diálogo entre o Governo moçambicano e a Renamo, enquanto movimento armado, nos esforços da conquista à luz do Acordo Geral de Paz, em Roma, em 1992. O Cardeal Dom Alexandre Maria dos Santos morre numa altura em que o país é desafiado a esforçar-se a estabelecer a paz duradoira e sustentável, embora realmente descanse tranquilo com a sua própria consciência, já que, na verdade, tenha combatido um bom combate. Na sua vida, o Cardeal defendeu os princípios de concórdia, igualdade e amor ao próximo, na base dos quais os moçambicanos devem assumir uma vivência de permanente harmonia. Na verdade, precisamos, todos nós, de estabelecer a paz e a concórdia. O Cardeal foi um defensor acérrimo do auto-estima. Dizia sempre que, se não formos capazes de ser ousados, Moçambique nunca será nosso. Advogava que os moçambicanos deviam despertar do seu sono profundo para explorar, em seu próprio benefício, as riquezas que o país possui e as que se descobrem a cada dia. Lembro-me que quando se inaugurou a avenida que leva o seu nome na cidade de Maputo, em Mahotas, mostrou-se muito surpreso e disse que nunca esperara que o seu próprio povo que o serviu, o reconhecesse e o homenageasse eternamente, atribuindo o seu nome à referida avenida. Ele fundou a Universidade São Tomás de Moçambique, em 2005, e considerou-a como um ponto de partida de formação de pessoas oriundas de vários cantos do país e de posterior retorno às zonas de origem a fim de disseminarem as aprendizagens obtidas, a favor das demais comunidades moçambicanas. Na verdade, o Cardeal Dom Alexandre Maria do Santos viveu intensamente a sua vida na terra, assumindo a missão divina que lhe havia sido incumbida. É uma estrela que continuará a brilhar intensamente nas nossas vidas. Assumiu a educação como um meio de promoção da igualdade, dignidade e pacificação entre os homens. Conforme disse anteriormente, foi assim que ele fundou a Universidade São Tomas de Moçambique e, mais tarde, a Escola Secundária Cardeal Dom Alexandre, na cidade de Maputo, e a Escola Comunitária Cardeal Dom Alexandre, no bairro de Khongolote, na província de Maputo. Com essas acções, certamente, acreditava que a educação dos servos devia começar com crianças pequenas. Acreditava que a mentalidade de servo é muito mais do que uma bela filosofia ou uma atitude de patriota. Estava convicto de que os verdadeiros imitadores de Cristo dedicam-se ao serviço, banindo as suas ambições egocêntricas. Entendia que o serviço não devia ser um acto de submissão a alguém, mas sim, um acto de amor; um desejo de dar amor. Entendia que ao se pretender mudar o mundo, tinha que se dar continuamente o amor as pessoas e que o serviço devia ser uma concretização do amor. Nisto tudo o Cardeal Dom Alexandre Maria dos Santos deu-nos um grande exemplo e pode concluir que “Combati um grande combate, terminei a corrida, guardei a fé. (Timóteo4:7”)

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