Xigoviya: Festivais mundiais da juventude

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Artur Saúde

DECORRIA o ano de 1985 quando, da Escola de Formação de Professores, “Filipe Elija Machava”, na cidade de Maputo, fui seleccionado para integrar a delegação moçambicana que iria participar do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. O festival teve lugar em Julho desse mesmo ano, em Moscovo, antiga capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Este tipo de festivais vem sendo feitos desde 1947 pela Federação Mundial das Juventudes e Democráticas e pela União Internacional dos Estudantes. A federação é uma organização de esquerda. Integrando instituições juvenis mundiais com carácter anti-imperialista, progressista e democrático. Nesse festival de Moscovo participaram cerca de vinte e seis mil jovens e estudantes de cento e cinquenta e sete países de todo o mundo. A nossa delegação era composta por cento e vinte elementos e foi chefiada pelo falecido General na reserva, Bonifácio Gruveta Massamba. Creio que na altura desempenhava as funções de Responsável das Organizações Democráticas de Massas, ao nível do Sede do Comité Central da FRELIMO. O Festival que teve como lema “Pela Solidariedade Anti-Imperialista, Paz e Amizade”, teve também como mascote a “Katucha”. Estar na delegação foi uma nova aprendizagem e desafios. Iniciamos a preparação antecipada de cerca de um mês. Participamos de várias palestras orientadas por vários dirigentes de inúmeros quadrantes nacionais. Marcelino dos Santos foi um dos palestrantes que da sua larga experiência de vida social e política partilhou as vivências tidas em eventos anteriores desta natureza. A multiplicidade temática permitiu-me aprofundar melhor a compreensão, na altura, sobre o nosso país e o seu lugar no contexto das Nações. Compreensão sobre a essência da guerra civil que o país passava. Da crise económica. Da crueldade do então regime sul-africano do “Apartheid”, enfim, entre vários outros males nefastos que o imperialismo nos impõe. Passámos quatro semanas de intensa preparação. Visitamos empreendimentos que eram estratégicos para o desenvolvimento da economia nacional. Depois iniciou a maratona da nossa viagem. Era uma delegação muito heterogénea. Composta por todo o tipo de jovens. Jovens que são hoje engenheiros, professores universitários, médicos, gestores de empresas estratégicas, políticos, dançarinos, músicos, etc. A nossa Companhia Nacional de Canto e Dança foi a nossa embaixadora artística cultural. Era capitaneada pelo respectivo Director-geral, David Abílio. Creio que o “Ntsay” e o “Sol Nasceu” foram as coreografias elegíveis para esta missão. A companhia tinha nomes de respeito: a Ana Vasta Chissano, Verónica Nhangumele, Matsombe, os irmãos Casimiro e Atanásio Nyusi,  Jorge César, Eduardo Durão, Pérola Jaime, Carolina Muholove, entre outros, cujos nomes me fogem agora. Foi num dos anfiteatros da Universidade Patrice Lumumba que a Companhia Nacional de Canto e Dança fez valer a sua reputação e o seu valor artístico por conta da nossa dança e música tradicional. Com os ritmos e o soar dos tambores, do Xitende, da Mbira, Xipalapala e da Timbila fizeram levantar estrelas do mundo, presentes na ocasião, entre as quais o brasileiro Martinho da Vila. Na música ligeira estavam os irmãos Will e Aníbal Matine mas um conguista. O trio era do bairro do Aeroporto. O trio animou e representou muito bem o país em vários painéis culturais. Estavam também o escritor Pedro Chissano. Os irmãos João e Sérgio Tique. O Eng.º  Silva Magaia. A Deisy Mahotas. O Bernardino Chiche e Azarias Inguane que faleceram no ano seguinte no brutal acidente de viação em Mbuzini. Raúl Baza-Baza (que também já não está entre nós) foi um dos nossos “porta-bandeira” na abertura solene do festival. Raúl Baza-Baza foi um exímio dançarino de Xigubo. Uma das danças guerreiras que marcam as lutas de resistência contra a penetração estrangeira em Moçambique. Para além da componente cultural, e fazendo jus a temática do festival, tivemos os nossos oradores que se fizeram apresentar em vários painéis temáticos deste evento. Moçambique participou também numa exposição dedicada ao anti-imperialismo. Lembro-me que se exibiu um pequeno avião-espião telecomandado que havia violado o nosso espaço aéreo na baía de Maputo e abatido pelas nossas forças de defesa e segurança. Suspeitava-se que o mesmo tivesse sido enviado pelo então regime sul-africano do “Apartheid”. Viemos a saber que o festival se realizou aproveitando-se as infra-estruturas que acolheram os Jogos Olímpicos de 1980. A Konsomol Leninista da Federação Russa, na altura, uma organização juvenil do Partido Comunista, anfitriã, fez de tudo para que o evento fosse um verdadeiro sucesso. Se por um lado, o foco dos festivais era a solidariedade anti-imperialista, num contexto actual, as nossas atenções deviam estar viradas para o desenvolvimento sustentável de toda a humanidade. Nunca mais tive acesso a informações exaustivas dos cursos dos festivais que se sucederam após a minha participação. Penso que as agendas das sessões se deviam relacionar à erradicação da pobreza, redução das desigualdades; promoção da saúde e educação de qualidade; água e saneamento, acção climática, entre outros. Ou seja, de problemas globais da humanidade eminentemente virados para o desenvolvimento da humanidade.

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