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Quarta-feira, 10 - Agosto, 2022

XIGOVIYA: Irmã Maria Augusta

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Artur Saúde

CONHECEMO-NOS na fila da matrícula escolar da Escola Preparatória Dr. Baltazar Rebello de Sousa, em 1976, na Beira, Sofala, escola que viria, tempos mais tarde, a designar-se Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba.

Eu me transferira de Maputo para aquela cidade a fim de ir viver com uma irmã mais velha, a Hermengarda. Quando viajei, em princípios de Dezembro de 1975, o meu pai já levava consigo todo o processo de transferência escolar provinda da Escola Primária Rebelo da Silva, de Maputo. Como o meu pai fosse, na verdade, criar condições para que eu vivesse com a minha irmã, aproveitou para passar o resto de suas férias na Beira. Assim, fiquei por lá e coube-me a primeira missão de pernoitar dois dias consecutivos na fila da matrícula da Escola Preparatória Dr. Baltazar Rebello de Sousa. Só no terceiro dia é que consegui matricular-me. Foi a primeira notícia que dei à mana Hermengarda quando voltou da DETA (hoje LAM), que era seu local de trabalho. Foi uma alegria total para todos nós. Portanto, foi durante essas longas horas em que pernoitamos na fila da escola, na sua parte exterior, na Av. Armando Tivane, que viria a conhecer o Osvaldo. Juntos partilhamos aqueles momentos duvidosos de inscrição escolar e para a nossa satisfação, calhamos na mesma turma “C” do primeiro ano do ciclo preparatório. Depois descobrimos que vivíamos no mesmo bairro, pois, a minha irmã tinha decidido transferir a nossa casa da Ponta-Gêa, próximo do Jardim Bacalhau, para Matacuane, num dos prédios perto do “Café Nicola”. Assim, a minha amizade com o Osvaldo solidificou-se cada vez mais. Ambos passamos a estudar juntos partilhando sistematicamente as nossas casas. Pela manhã, antes de nos prepararmos para as aulas, comprávamos juntos a broa para o café da manhã com as nossas famílias, e só depois disso é que íamos juntos à escola. Juntamente conquistamos amigos comuns dos quais me recordo agora do Proença e do Juma (já falecidos, sendo este último muito recentemente), do Bernardo Wing (Bica), do Luís Filipe, que mais tarde veio a destacar-se no Badmington, do Camilo, Amir, Catoja, da Sandra Martins, enfim, foram tantos que não poderão caber nestas linhas. Juntamente com o Osvaldo fomos descobrindo uma complexidade das nossas semelhanças que incluía a nossa aberração à disciplina de Matemática. Detestávamos esta disciplina a tal ponto de não gostar dos dias da terça-feira e da quinta-feira. Eram os dias em que tínhamos aulas duplas de Matemática. Nem eu, nem Osvaldo tínhamos queda para os números. E, para piorar, tínhamos a professora, irmã Maria Augusta, muito “às direitas” que nos pressionava a aprendizagem através de um montão de equações, decifração de números naturais, inteiros, racionais, números primos, razões e proporções entre muitos outros exercícios de que não gostávamos. Como consequência disso, passamos também a não gostar da irmã Maria Augusta. Creio que ela deve ter- se apercebido da nossa aversão à disciplina, pelo que nos chamava frequentemente ao quadro, ou para resolver o TPC ou então para resolver os exercícios durante à aula. Deste modo, a Matemática e a irmã Maria Augusta passaram a ser o nosso (eu e Osvaldo) “bico-de-obra”. Tema de estudo e de conversa todos os dias que não conseguíamos superar. O certo é que ela nos mandava ir sempre ao quadro e nós não gostávamos. Associado a isso, eram as reguadas que recebíamos sempre que errássemos algo. Sei que foi a partir dessa altura que começamos a ouvir muitas propostas de soluções bizarras para superar o nosso drama. Uns diziam que (para que a pequena tábua de madeira se partisse durante as “reguadas”,) tínhamos de quebrar simultaneamente porções de feijão-nhemba na boca com os dentes. Outros nos diziam que para não ser chamado a resolver problemas e outros exercícios no quadro, tínhamos de, antes, amarrar pequenos feixes de capim. Com isso acreditava-se que a professora chamaria outra pessoa para o efeito. Lembro-me de termos seguido este último conselho várias vezes, já que de casa para a escola tínhamos de atravessar uma área com alguma vegetação, incluindo arrozais dos camponeses vizinhos da escola. Era ai onde amarrávamos o capim, mas sem sucesso nenhum. Acabamos passando por esse dilema até concluirmos toda a fase do ciclo preparatório. Depois disso fizemos o Liceu e tivemos cursos e profissões diferentes. O Osvaldo teve uma morte trágica em 1986, e da irmã Maria Augusta nunca mais ouvi falar.

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