12.4 C
Maputo
Sexta-feira, 1 - Julho, 2022

XIGOVIYA: “Xiconfrana”

+ Recentes

Artur Saúde

QUANDO o grupo de estivadores, munidos de catanas, machados e pé de cabras, aproximava-se para arrombar a cantina do Amadeu Alves, a última, que restou de tantas outras de colonos destruídas depois no nosso bairro, houve desentendimento entre os próprios autores.

A diferença de opiniões derivava das razões que motivariam a tal acção, considerando o modo de ser e de estar do Amadeu Alves.  Foi tudo na senda dos levantamentos de sete de Setembro a 21 de Outubro de 1974, na cidade de Lourenço Marques, derivados do clamor da vitória à luz da assinatura dos Acordos de Lusaka, que fez com que se entendesse que a melhor exaltação era de se matar e destruir os bens dos brancos, tidos como colonizadores.

A destruição e açambarcamento de seus produtos foi um pouco pelos bairros da periferia, incluindo o meu, e a cantina do Amadeu Alves. Logo após o início da investida já dividia opiniões: uns diziam que não convinha açambarcá-la, porque se corria o risco de não se ter nenhum outro sítio, para se comprar produtos, logo que a agitação terminasse.

Na verdade, era consenso de que o Amadeu Alves era um dos poucos brancos do bem e não racista quanto os restantes cantineiros do bairro. Criou muitos amigos negros da sua idade, que nas tardes de domingo os recebia no quintal da loja, para juntos tomarem alguns copos e manjares, ouvindo a voz saudosa de Paulo Terra, relatando os jogos do campeonato da Metrópole, em Portugal.

No dia da confusão, o senhor Rafael (pai do meu amigo “Ngwegwe) foi a cara mais visível e destacada que saia em defesa do Amadeu, liderando uma cintura de gente que protegia a loja para que não se invadisse a cantina. O outro grupo era de alguns estivadores, ávido em açambarcar e se possível matar o Amadeu por ser branco e colono.

Ele vivia sozinho e só muito mais tarde recebeu e viveu com um outro primo (branco) alto que trabalhou na empresa Tâmega, na construção de estradas, como supervisor de obras, se não estiver enganado. Todos eles eram simpáticos. A sua proveniência era discutida: uns diziam que provinham do Douro Litoral, no Porto; outros diziam que eram da zona do Alto Trás-os-Montes. Enfim, nunca tivemos uma exactidão da origem, por ambos serem reservados nesses detalhes. Ora, no dia da confusão, ao se aperceber da balbúrdia, escondeu-se, primeiramente num compartimento que servia de armazém, atrás dos barris de madeira que continham vinho importado. Não lhe passou pela cabeça que os barris fossem um atractivo preferencial para os açambarcadores, sendo o primeiro produto que procuravam, depois da invasão. E foi o que aconteceu. Depois de entrar, foram directamente aos barris para os carregar e no meio desse cenário, o Amadeu saiu desse lugar para o quarto, agachando-se nas traseiras do seu cofre. Foi nessa altura que Gobjyana, um dos dinâmicos estivadores e que tinha fixado a sua atenção para o referido cofre, também se dirigiu para o recolher. Ao se aperceber disso, Amadeu levanta-se e corre desesperadamente para o quintal, sentindo a morte violenta a lhe chegar. Na verdade, ele não sabia que os dois grupos desavindos, ainda antes de entrar na loja, tinham acordado deixar vivo o Amadeu e levar produtos ligeiros para não se criar um défice no abastecimento normal de produtos alimentares, que fossem necessários para as populações mais tarde. Por essa razão é que o vinho e o cofre tornaram-se imediatamente elegíveis. Entretanto, foi na disputa e carregamento do cofre (por ser muito pesado) que vi uma coisa que jamais viria em toda a minha vida. Num ápice Gobjyana carregou o cofre, colocou nas suas costas e, entre os becos, foi para casa apressadamente, para, com mais calma, arrombá-lo e apoderar-se do dinheiro. A forma como carregou o cofre para  o colocar nas costas e desaparecer do local causou indignação e  admiração a muitos outros assistentes o que lhe valeu o baptismo do nome “Xiconfrana” (cofre pequeno em Tsonga), nome pelo qual ainda é chamado até hoje , já na fase de  velhice. Ele levou muitos dias a tentar abrir o cofre, facto que  só  foi possível depois de o dinamitar. Até hoje a carcaça do cofre encontra-se enferrujada atrás da cozinha do seu quintal. A cantina do Amadeu Alves foi das raras que resistiu à crise severa de produtos alimentares registados na década oitenta e o respeito e consideração pelo seu proprietário elevou-se no bairro. Amadeu Alves morreu no início da década noventa, e foi a nossa comunidade que realizou as cerimónias fúnebres. Idem em relação ao primo que, mais tarde viria a tomar conta da cantina.

- Publicidade-spot_img

Destaques