EMPREENDEDORISMO EM TETE: Incubadoras impulsionam mulher jovem

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CERCA de 35 por cento de mais de 130 beneficiários do projecto de incubadoras de negócio na província de Tete são jovens mulheres e as mesmas testemunham transformações da sua vida empresarial.

Trata-se de “oficinas” empresariais que estão a ser instaladas em todo o país, com o intuito de apoiar jovens que pretendem apostar no empreendedorismo ou auto-emprego. Nesta província, há quatro incubadoras, situadas no município da cidade de Tete e nos distritos de Angónia e Mutarara.

As incubadoras de negócio estabelecidas em Tete acolhem jovens que são ou desejam ser empreendedores nas dimensões de venda de produtos, prestação de serviços, serralharia e mecânica, avicultura e agricultura. Uma das grandes mudanças que as jovens destacaram é a forma de abordar o mundo de negócios.

“Sou nova na área em que estou a empreender e tenho tido dificuldades na parte de gestão do negócio em si e de pessoas. Como é um processo de aprendizagem contínua, precisamos de bases fornecidas por pessoas experientes e tenho encontrado isso na incubadora”, disse Isménia Sitoe, proprietária de uma empresa de logística e venda de equipamentos de protecção individual.

Acrescentou que com o que aprendeu na incubadora AgriSol, iniciou a reorganização da contabilidade e das finanças da sua empresa, para além de levar os colaboradores a seguirem os princípios básicos de uma firma, como cumprimento de horários, e dar “feedback” das tarefas que lhes são incumbidas.

A empresa que a jovem gere pertence, também, à sua irmã, que teve de se mudar para a província de Gaza, de onde cuida da aquisição de equipamentos na África do Sul. Isménia Sitoe, formada em Engenharia Zootécnica, faz, também, o negócio de produção de frangos em Chokwé, distrito de Gaza, interagindo à distância com os seus colaboradores.

Os conhecimentos de gestão são transmitidos através de palestras. Duas vezes por semana, os incubados reúnem-se para serem instruídos. Foram estes seminários que levaram Euritsi de Abreu a abrir a sua sorveteria, um projecto que desejava implementar já há dois anos.

“Fazia experiências em casa, que eram muito satisfatórias para a minha família. Mas tinha medo de começar, porque não sabia como funcionaria a parte de gerência e o prazo de validade, sem contar que precisava de uma nutricionista especializada para esses tipos de produtos. Por isso tinha receio de avançar, apesar de já fazer outros negócios como caravana de hambúrguer e bolos”, explicou.

Disse, ainda, que quando entrou na incubadora, a sua visão ficou ampla e em pouco tempo conseguiu seguir os requisitos necessários para arrancar com o negócio. Os sorvetes produzidos por Euritsi de Abreu têm a particularidade de serem feitos com frutos locais como malambe, maçanica e morango.

Mulheres preparam-se para abrir oficinas

Instalada em 2020, por meio de fundos públicos, com o objectivo de oferecer treinamento técnico e empresarial para empreendedores, a incubadora AgriMaq acolhe e incentiva também as mulheres jovens formadas em cursos profissionalizantes para o mundo de negócios.

Este exercício é feito acrescentando os conhecimentos de gestão aos de serralharia, soldadura e mecânica que os incubados já carregam.  

“Antes de entrarmos para a fase prática, passámos por instrução sobre gestão de negócios. E isso foi muito importante, porque não sabia como gerir bem e saía prejudicada sempre que um cliente encomendava um trabalho”, explicou Domingas Cesário, serralheira-soldadora.

Os incubados chegam às “oficinas” por meio de um concurso.

A AgriMaq, por exemplo, quando abre um novo ciclo para recepção dos potenciais empreendedores divulga as novas vagas junto das instituições de ensino profissionalizantes.

“Formei-me em serralharia. Depois fiquei em casa a vender peixe fresco. Soube deste lugar numa altura em que queria investir, também, na serralharia e até já tinha uma pequena oficina. Concorri e fui apurada”, recordou a empreendedora.

Domingas Cesário está, actualmente, em processo de legalização da sua empresa para, de seguida, concorrer a um financiamento em espécie que a Agência do Vale do Zambeze dá aos incubados. A jovem domina a produção de fogões, portões, placas de identificação e alpendres, mas para poder avançar com autonomia na sua oficina precisa de máquina de soldadura, berbequim, compressor e rebarbadeira.

Presente há cerca de oito meses, a serralheira Nórcia Saguate explicou que, por conta da Covid-19, após terminar o seu curso profissional de soldadura, no ano passado, não teve estágio e quando soube da incubadora concorreu para poder ter contacto com a prática, mas tem já na mente ideias para abrir a sua empresa.

“Tenho amigos que se formaram antes de mim. Quando tivessem um biscate, convidavam-me, porque alguns estão a trabalhar em grandes empresas. É assim como praticava antes, e ganhava algum dinheiro. A maioria reclama que é trabalho de homem, mas não dou importância a esse preconceito”, reiterou.

Afirmou que, aquando da inscrição no curso profissionalizante, matriculou-se para serralharia, mas depois mudou para soldadura, tendo beneficiado do apoio moral e financeiro do seu esposo. Já na incubadora, cujo acesso é grátis, aposta nas duas áreas em resultado da interacção com outros empreendedores em formação.

A serralheira-mecânica Raquel Orlando revelou que, depois de frequentar o seu curso, desejou arrancar com a montagem de uma micro-oficina, e, ao inteirar-se de como funciona uma incubadora de negócios, decidiu envolver-se para juntar o que tinha aprendido com a instrução em gestão de negócios, mas está, também, a alargar a sua rede de contactos.

“Estou aqui há pouco tempo, e temos estado a ver como gerir um negócio. Em paralelo, ajudo alguns jovens da incubadora, que receberam financiamento, pois convidam-me para fazer trabalhos. Auxilio no corte com maçarico e na soldadura”, declarou.

Aliás, na AgriMaq, para além do exercício que fazem nos encontros bissemanais, para mentoria e treinamento, quando a Vale do Zambeze tem um projecto que precisa de trabalhos de serralharia e soldadura, chama os incubados e paga pelo trabalho, como forma de facilitar os primeiros passos dos empreendedores embrionários na busca de meios para a legalização da empresa.

Manter mulher jovem é desafiante

Nem tudo tem sido um mar-de-rosas nas incubadoras, pois há mulheres jovens desistindo durante o percurso. Na edição 2020-2021, das oito mulheres que estavam na AgriMaq, cinco desistiram.

“Entre as três que permaneceram, uma conseguiu ter acesso ao financiamento de 120 mil meticais em forma de material para arrancar com a sua empresa. As outras estão ainda na batalha. Algumas ficam pelo caminho, mas vamos continuar a sensibilizar para que nas próximas edições tenhamos mais adesão feminina”, assegurou Lilian Indur, ponto-focal da AgriMaq.

Fez saber, também, que alguns jovens têm desistido, porque ao concorrerem para entrar na incubadora pensam que este é um emprego. Quando lhes é esclarecido que a ideia é ensinar-lhes a serem empreendedores, abandonam.

“Estar num movimento como este, gratuitamente, é um privilégio sem igual para um jovem. É necessário que o aspirante e quem já faz negócio procurem entrar e tenham paciência de aprender, porque são muitas oportunidades que se abrem estando aqui”, considerou Lilian Indur.

Dalton Sitoe
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