PROMER: O contributo da igualdade de género para harmonia do lar

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MULHERES das comunidades de cinco distritos da província de Cabo Delgado, nomeadamente Montepuez, Namuno, Balama, Ancuabe e Chiúre, já se sentem envolvidas pelos respectivos parceiros na gestão dos recursos familiares, planificação conjunta da produção e comercialização dos excedentes agrícolas, entre outras decisões  que, antes, eram consideradas da alçada exclusiva dos homens.

Esta “viragem” decorre da intervenção do Governo e parceiros, neste caso específico do Programa de Mercados Rurais (PROMER) e Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), na implementação de programas de promoção da igualdade do género, no seio das famílias dos pequenos produtores rurais das regiões acima mencionadas.

O PROMER, uma iniciativa em curso na província de Cabo Delgado desde 2009, tem como objectivo permitir  que os pequenos produtores aumentem a sua renda familiar, através da comercialização dos seus excedentes com maior rentabilidade, sem descurar das questões transversais, tais como a empregabilidade juvenil, nutrição,  adaptação às mudanças climáticas e a promoção de igualdade de género.

De acordo com a coordenadora provincial do PROMER em Cabo Delgado, Enia de Sousa, até 2014, a abordagem era no sentido de garantir a participação da mulher nas diferentes actividades do programa, mas quando nesse ano foi realizada a avaliação de meio-termo, constatou-se que, apesar de ter sido alcançada uma participação  feminina em 50 por cento, em todas as actividades, a mesma não se traduzia no verdadeiro empoderamento da mulher.

“Continuavam os relatos de violência doméstica contra a mulher, ao nível das famílias, o homem continuava a ser o que decidia sobre o que produzir, quando e a que preço vender e, sobretudo, que fazer com os rendimentos, em suma, continuava limitado o acesso da mulher às oportunidades criadas pelo programa”, explicou Enia de Sousa.

Para reverter a situação, foi adoptada uma abordagem considerada transformativa, com vista a ultrapassar os factores que contribuem para as desigualdades do género, no âmbito social,  produtivo, económico e de liderança.

Denominado Sistema de Acção e Aprendizado (GALS, da sigla inglesa), a metodologia consiste na planificação, liderada pela comunidade,  treinamentos, reflexões e aprendizados de pares, intercalados por acções práticas, em que cada um dos participantes definia o seu plano, de acordo com aquilo que a sua família pretende atingir, as oportunidades existentes na sua zona, os constrangimentos que era necessário ultrapassar.

Vender bens de casa para ir beber

Neste momento, mulheres  de 564 lares das comunidades rurais dos cinco distritos sentem-se envolvidas pelos seus parceiros nos processos de tomada de decisão sobre os recursos familiares, planificação conjunta da produção e comercialização dos excedentes agrícolas, entre outras tarefas das quais eram antes excluídas.

Como apurámos em Nacuca, uma das regiões hospedeiras da iniciativa, localizada no distrito de Montepuez, o projecto despertou nas pessoas mudanças e transformações.

Eusébio Alberto, praticante do GALS, contou como a sua vida se transformou quando entrou para o programa. A principal, disse, foi ter conseguido abandonar o consumo abusivo e dependência de álcool.

“A minha vida era apenas beber. Todos aqui conheciam-me como bêbado. Eu roubava os meus próprios bens para vendê-los ou trocá-los por bebida”, contou.

Casado com Sifa Teda, Alberto disse que não tinha tempo para nada, mesmo para a sua esposa, que muitas vezes tinha de ir à casa dos pais para “fugir” da solidão. Mas, graças ao GALS, hoje tornou-se comerciante intermediário de produtos agrícolas.

Como resultado, Alberto fez as pazes com a companheira, comprou uma motorizada e iniciou o projecto de reabilitação da sua casa.

A esposa, Sifa Teda, confirma que o marido “mudou muito”. “Até me ajuda nas tarefas domésticas, varrer, lavar prato, o que antes era ‘malavi’ (tabu, em emakuwa”, disse.

Conciliação familiar

Teresinha Francisco está casada com Cordiano Ramalho, há 16 anos, mas apenas há cerca de dois, quando aderiram à metodologia GALS, começou a participar nas decisões  sobre os recursos da família.

“Hoje já temos uma casa melhorada, cama, motorizada, uma machamba de 10 hectares, um terreno na cidade de Montepuez”, revelou Teresinha.

Ramalho confirma que, antes, ele levava todo o dinheiro resultante da venda de excedentes agrícolas “para as farras”.

“Escondia dinheiro nas meias para ir gastá-lo com outras mulheres. O meu amigo Orlando Vaileque é testemunha disso, mas, graças a Deus, as coisas mudaram”, reconheceu Ramalho.

Casada de verdade

Anselmina Eusébio, esposa de Orlando Vaileque, disse que, apesar de casada há uma década, só há um ano e meio é que se sente, realmente, casada.

“Antes, o meu marido espancava-me quando lhe pedia para diminuir de beber. O pouco que conseguíamos na nossa machamba ele vendia tudo e levava o dinheiro. Eu só participava na lavoura, sementeira e colheita, o resto não sabia de nada”, recordou Anselmina.

Porém, desde que começaram a participar em encontros de GALS, o seu marido mudou radicalmente. Agora, diz, já tem tempo para discutir os projectos da família. Conjuntamente, decidiram o aumento das suas áreas de cultivo dos anteriores dois, para cinco hectares.

“Hoje ele ajuda-me nas tarefas domésticas, coisa que antes não fazia”, disse.

Autoridades comunitárias reportam ganhos

A liderança comunitária de Nacuca regista, nos últimos tempos, certa melhoria da vida dos habitantes, nas esferas sociais e económicas, que se caracteriza na harmonia intra-familiar, construção e reabilitação de casas, pequenos negócios.

“O consumo de bebidas alcoólicas era um dos grandes males deste povoado. Por causa do álcool, os homens não respeitavam as suas mulheres, batiam-nas, gastavam o dinheiro da venda dos produtos agrícolas, sem consultar as suas companheiras, enfim, era uma confusão”, explicou Binabo Malema, líder comunitário do povoado.

Segundo Malema, apesar dos seus esforços para a redução do consumo de álcool e, consequentemente, dos casos de violência doméstica, a situação continuava a deteriorar-se.

Porém, o cenário começou a melhorar, nos últimos dois anos. “Nota-se uma certa harmonia, na maioria das famílias, como resultado directo da redução de casos de abuso de álcool e de violência domésticas, graças a um programa que está a ser implementado pelo Governo, que permite às pessoas, homens e mulheres, em grupos organizados, planificarem aquilo que querem ser e obter para o bem das suas próprias vidas”, explicou.

ADMINISTRADORA DE MONTEPUEZ: Vamos transmitir as lições aprendidas

Em Montepuez, segundo a administradora do distrito, Isaura Máquina, o PROMER trabalhou nas áreas de assistência técnica às associações de agricultores, especialmente na criação, organização, legalização e promoveu formações, em várias matérias, sobre associativismo, ligação com  mercados, na definição de preços de venda de excedentes agrícolas, entre outras acções.

“Foram igualmente criados grupos de poupança, feita transferência de tecnologias na cultura de gergelim e feijão bóer, educação nutricional, apoio na melhoria de estradas, nomeadamente, Mirate-Nquewene, Nacuca-Mahepe  Mirate-Mahepe. Todas estas vias são resilientes”, elencou Máquina.

De acordo com a administradora, o Governo distrital tem uma avaliação positiva da intervenção do PROMER em Montepuez.

“Por isso, é nosso desejo que este projecto tenha continuidade, abrangendo outras comunidades carenciadas do nosso distrito. Comprometemo-nos a continuar a ser elo de transmissão das lições aprendidas e das boas práticas, em todas as vertentes, às outras comunidades”, garantiu Isaura Máquina.

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