Havia dúvidas sobre se o M’saho iria acontecer, depois de Inhambane ter sido palco do Festival Nacional de Cultura. Mas, imediatamente, a organização do evento tratou de dissipar dúvidas e comunicou que, de facto, aquele festival de timbila teria lugar no último final-de-semana do mês de Agosto, como religiosamente acontece.
“Mas será que este evento teria o sucesso desejado?”, cogitavam muitos. Porém, estas dúvidas foram se dissipando logo no início dos preparativos do evento, na medida em que Zavala, particularmente Quissico, começou a “vestir-se a rigor” para o M’saho.
Nem o mau tempo, que ameaçou descarregar violentas bátegas de chuva durante o fim-de-semana, muito menos os fortes ventos, que espalhavam nuvens de poeira, fizeram as pessoas desistirem de estar presentes no Miradouro de Quissico. O palco do festival de timbila.
Mas o M’saho é M’saho. E não há nada, nem festival algum que vai impedir que ele se realize. É assim como pensam os organizadores desta festa e é assim como procederam. Vários grupos fizeram-se ao palco do Miradouro, ponto a partir do qual é também possível observar um outro espectáculo criado pela natureza: o longo lençol verde formado, na sua maioria, por palmeiras e que é atravessado pelas límpidas e cristalinas águas das oito lagoas de Quissico que se comunicam com o Oceano Índico. Beleza paradisíaca.

O Miradouro esteve cheio. Gente vinda de diversos pontos do país, mas também de outras paragens do mundo. Ficaram
lá para ver a festa da timbila começar. E iniciou com o mkwaio, que é a selecção dos melhores marimbeiros existentes em todo o distrito de Zavala, convidado para cantar o Hino Nacional com recurso a timbilas. Depois se seguirá a exibição dos ritmos e dos cânticos. Fortes Fortes. Onde os bailarinos exibem coreografias estonteantes, e executam simulações guerreiras, com escudos, flechas e cajados, que nos vão fazer viajar pelos tempos de Ngungunhane e outros heróis, reis e imperadores.
Um espectáculo de encher os olhos. Depois foi o desfile dos grupos, sendo que a surpresa para nós foi a entrada de Timbila ta Guilundo, do mestre Venâncio Mbande. É que, quando anunciaram a subida desta orquestra, Venâncio Mbande retirou-se do palco, como que a querer dizer: “Agora é a vez dos meus filhos. Dos meus descendentes. Eu já fiz a minha parte. Por isso quero deixar os meus meninos fazerem o que sabem fazer. Mostrar o que eu ensinei”. E Venâncio Mbande saiu e foi sentar numa cadeira a ver os filhos tocarem e dançarem loucamente. E aqui são os filhos, netos e demais familiares de Venâncio Mbande quecompõem este agrupamento, que na linha do seu fundador, continua a desfilar qualidade.
Foram subindo vários outros grupos, mas a orquestra Timbila de Chizoho, criado pelo Professor Cremildo Pedro Nhantole, é um dos melhores da actualidade. E eles conseguiram se impor. Fazem furor quando sobem ao palco. Uma das coisas que impressiona é o facto de esta orquestra ser composta por crianças. Na sua maioria meninas. E aqui queremos recordar que, no ano passado, foi escolhido para representar Moçambique num festival internacional de cultura, que decorreu na França. Este grupo infanto-juvenil tem uma alta capacidade de criatividade e coreografias giras.

Vendo este agrupamento, fica claro que está em curso o processo de passagem de testemunho dos mais velhos para os petizes, sobre os valores desta expressão cultural. Mas também temos a Timbila de Muane, que é um grupo extremamente forte e versátil.
FRANCISCO MANJATE


