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Ei-lo assim mesmo, Corrompido pelo tempo e domado, Pelo devir. - Armando Artur

AO lermos o mais recente livro do poeta Armando Artur, As falas do poeta, deparamo-nos com uma poesia plena de pequenos mundos por onde o poeta transita com uma espécie de reverência, à imagem de uma alma que, com um espanador de memórias, aviva tempos, espaços, gentes ou personagens, ideias e atitudes. Por isso, parece-nos, esta poesia, errática.

Errática no verbo, na palavra, na fala que é o próprio Ser da poesia, principio e fim em si mesma, quiçá contrária às vontades do poeta, mas que assim sendo, irremediavelmente, o define. Quem poderá orgulhar-se de escolher as suas memórias? Não serão, antes, elas que nos escolhem? Como diria Lévi-Strauss, não serão os objectossocioculturais a comunicar através dos poetas e não estes através daqueles?[1]

Podemos identificar, em As falas do poeta, pelo menos três pequenos mundos através dos quais se pode construir uma imagem errática do poeta, nomeadamente, i) o mundo do poeta e da poesia, ii) o mundo do poeta e dos homens, iii) o mundo do poeta e do seu homem.

DO POETA E DA POESIA

Este é o universo da evocação da própria poesia, uma evocação que vai da literatura à música, destacando-se neste exercício a alma poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, um nome, uma alma que se materializa, efectivamente, num dos mundos de um eu lírico incapaz, por isso mesmo, de resistir às confidências que com o tempo se impõem:

Teu signo, Sophia

É uma luz no fundo do nada

Que leva à verdade infalível

Das laudas da poesia. (p.15)

 

Como uma luz no fundo do nada, assim se pode definir a poesia de Armando Artur, ou, pelo menos, um dos veios da sua poesia (veja-se um livro como No coração da noite). Uma poesia que parece obcecada numa espécie de caos que, pela voz (filosófica) da própria poesia, se faz metonímia de um lugar e das suas coisas:

Terá Franz liszt descoberto

Que numa elementar partitura,

Flutuando na dimensão

Do nada,

Reside a essencialidade

Do ser? (p.20)

 

Do poeta e dos homens

Aqui o compasso é outro, também é outra a fala, menos filosófica, mais utópica, mais engajada, mais programática, atenta aos debates e às urgências dos ‘dias em riste’ ou ‘dos estrangeiros de nós próprios’, como acontece num poema como “Quando a Pátria que é nossa”:

Quando a pátria que é nossa

Quer-se assim esgravatada e repilhada

Até aos limites do seu interior,

 

Quando a pátria que é nossa

Quer-se assim regateada e leiloada

À taxa diária do sangue, suor e lágrimas

De milhões de braços, e uma só força,

 

Quando a pátria que é nossa

Quer-se assim assaltada pelos flancos

Da sua beleza e contornos da sua geografia,

 

Quando a pátria que é nossa

Quer-se assim reassaltada por gente

De outrora e de paragens distantes,

 

Quando a pátria que é nossa

É assim cobiçada por mercadores

De insónias e arautos do caos

E da precariedade,

 

Todo silêncio e todo exílio serão

Sempre iguais à pátria que é nossa. (p.33)

 

Trata-se, como se pode depreender, de um mundo conturbado, um mudo do presente, actual, que, se não espaça à atenção do pacato cidadão, do homem mais comum, parece encontrar na alma do poeta a urgência de denunciar, quando muito não seja, pela razão desse presente trazer-nos à memória as lições do passado.

DO POETA E DO SEU HOMEM

Este é um universo de dor, de silêncio, de ausência; um mundo, enfim, elegíaco, repleto de vida e de morte. Um mundo que nos reenvia, necessariamente, à intersecção, ao liame entre o homem e o poeta desta obra (a julgar pela dedicatória que leva um poema como “Estes dias sem a Milena”) e a uma memória que parece ameaçar “anoitecer” a fala a ambos:

Sob a luz difusa

E dependurada

Na parede dos dias

Procuro nos contornos

Da tua ausência

O sentido de ser

E continuar aqui (p.51)

 

Estas são As falas do poeta, uma voz da própria poesia, voz da pátria, voz do homem; voz por essas dimensões errática, mas ancorada numa memória umas vezes saudosa, outras vezes de dor e pesadelo:

O novo xiconhoca

É um personagem nosso

Mas da era contemporânea.

Difere em grande do xiconhoca

Original, tanto é que de originalidade

É o que lhe falta em demasia (...)

Possui várias tonalidades de carácter

Ideológico, religioso e fetichista

Que exibe em função das fases da lua

Ou do fluxo e refluxo da preia-mar (...)

 

O novo xiconhoca é um fingido

De se lhe tirar o guarda-chuva.

Faz de conta que está na mesma trincheira

Com os outros, ou na mesma procissão

De combate à pobreza absoluta.

Descobriu que no meio da maioria é mais

Fácil driblar tanto por dentro como por fora,

Pois goza da aura sagrada de homens e mulheres

Arautos da liberdade colectiva.

É ardiloso na conceptualização do abstracto

E ignora que o problema maior de momento

Esta na ausência total ou presença excessiva

Do odor milenar à terra molhada,

Que convoca a saudade da lua cheia

Ou do verde esperançoso das espigas de milho (p.34-47).

 

Lucílio Manjate

 


[1]Em DURANTI, Alessandro, (1997), Linguistic Anthropology, New York: Cambridge University Press.

 

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