SOBRE as maxi-saias não há como ser indiferente. Até porque é o tema da actualidade nas conversas de rua, corredores, redes sociais e canais de informação. É compreensível que o tema divida opiniões e é ainda mais compreensível que muitos outros cidadãos não estejam clarificados sobre a natureza dos debates à volta das mini e maxi saias.
Compreenda-se que as escolas já há muito que deixaram de ser um espaço seguro para as meninas, em particular as adolescentes, por várias razões, e de entre elas reside o abuso sexual – o que é uma gritante forma de violação dos seus direitos, entanto que menores e humanos. Poderia chamar à atenção para os inúmeros factores que obrigaram o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano a dar mão à palmatória e aceitar que existem abusos sexuais nas escolas. Daí a campanha “Tolerância Zero”. Se ainda vigora, então não está a funcionar como deve ser ou de contrário foi esquecida.
Recorde-se que desde sempre o tamanho da saia do uniforme se recomendou que fosse abaixo do joelho e não consigo compreender onde estávamos nós (escola, sociedade civil, pais, encarregados de educação e outros legítimos superiores) que permitimos que esta chegasse à mini-saia. É verdade que o ministério está de parabéns pela iniciativa de fazer uma revisão à questão do uniforme escolar, mas há que sublinhar que foi infeliz na argumentação/justificativa apresentada, a basear-se pelas entrevistas dos quadros do ministério (jornal “Notícias”, 18 de Março).
A questão da educação no país é quanto a mim, uma vergonha. A qualidade dos alunos nos dias que correm deixa muito a desejar. O elevado número de reprovações põe em causa não só a qualidade do aluno, mas também a do professor. As condições de infra-estruturas das escolas são outro assunto a se ter em conta na criação de ambiente favorável para um bom processo de ensino e aprendizagem. Lamentavelmente, ao entendimento do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano as saias maxi vão melhorar o ambiente de ensino para o professor e repor a decência nas alunas assim como devolver o valor às escolas. Serão estas as reais razões para a uniformização do tamanho das saias? O que é que pretende o MINEDH transmitir com estas palavras já que para mim fica claro que, mais uma vez, as adolescentes com as suas mini-saias tiraram o valor da escola, se tornaram indecentes e minam o ambiente de trabalho do professor. Para mim isto é uma vergonha sem igual. Mais uma vez a escola está a reforçar os estereótipos de que a saia curta é indecente; quem põe saia curta está com outras intenções, ao mesmo tempo que foge do seu papel de educar, ensinar que as pessoas têm de aprender a saber ser e saber estar, saber conviver e se adaptar às regras e hábitos saudáveis, saber respeitar os outros e a si mesmas, e isto transcende qualquer proibição.
Preocupou-me um artigo de opinião do dia 24 de Março publicado neste jornal sobre as saias maxi quando li “Ilustres, sempre temos vindo a abordar sobre as tendências da “bordelização” das escolas moçambicanas e uma das causas é a forma de vestir das nossas educandas. Antes de professor, o profissional da educação, passa a repetição, é um Homem.
Tem sido comum, ver algumas das nossas educandas desfilando daquelas mini-saias nos corredores das nossas escolas, sobretudo, nas proximidades das salas dos professores, ostentando sua voluntariedade em serem possuídas.
Sentimos que já é tempo de nos questionarmos sobre quantos professores perderam seus lares por causa das saias curtas e justas de suas alunas, quantos já perderam seus empregos, sobretudo, nas escolas secundárias de ensino-privado. De certeza, muitos”!
Até que ponto temos consciência do impacto destas afirmações que não só são escritas nos artigos de opinião mas também ditas de forma irresponsável e inconsequente? Que sociedade estamos a querer construir e que modelos de educação estamos a reproduzir, com o abono do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano?
É um insulto dizer que as mini-saias ostentam a voluntariedade em ser possuídas. É um insulto maior ainda dizer que o professor além de profissional é homem. Ou será isto uma proposta a que voltemos para o debate de sexo e profissões, porque assim, estaríamos a dizer os gineco-obstetras que não abusam as suas pacientes tem a sua masculinidade em causa.
Verdade é que nem as saias maxi e nem as camisas de mangas compridas, fechadas até ao último botão (que já é proposta nas redes sociais) vão resolver o assunto dos abusos sexuais nas escolas e nem melhorar a qualidade de educação. Se alguma coisa precisa de revisão urgente nas escolas é a purificação dos quadros da educação. professores abusadores e pedófilos não podem ser vistos como vítimas porque não o são. Professores abusadores e pedófilos são abusadores e pedófilos e a Escola não é um lugar para eles e sim a cadeia. Nunca as adolescentes e as saias curtas devem ser vistas como responsáveis pelos lares desfeitos dos professores. Isto é desprezível. E lamentavelmente, a imposição das saias maxi só reforça este conjunto de insultos e expõe a figura das meninas adolescentes como um perigo para os homens e seus lares. Isto é para ser veementemente desmentido e desconstruído.
Convido a todos a vivenciar o ambiente desconfortável que as maxi-saias causam nas paragens na hora do “chapa”. Se “apanhar” o “chapa” já era uma confusão, as saias maxí reforçaram o caos. Já alguém pensou no desconforto das saias maxi nos dias de chuva? E nos dias de intenso calor? O que será que faz das escolas que impõem as saias maxi melhores que as que simplesmente exigem um palmo abaixo do joelho?
Construir uma sociedade que privilegia os princípios de respeito por si e pelos outros, independentemente da roupa, raça, etnia, religião, cultura, estado civil é um dever de todos assim como é dever de todos repudiar acções, pensamentos, atitudes, valores que estigmatizam, discriminam, hostilizam e oprimem. A solidariedade entre as pessoas tem que ser parte de todos nós.
É hora de dizer aos rapazes e as meninas que têm direitos a lazer e circulação, tal como os que andam à noite e vão a espaços públicos. Não as violem e nem abusem sexualmente, respeitem-nas. É hora de dizer aos professores que as alunas adolescentes são crianças e não mulheres, portanto, eduquem-nas e não as abusem sexualmente. É hora de dizer, somos seres humanos racionais e não animais. A consciência tem que apitar a todo acto errado que pretendermos fazer. É tempo de educar e não de punir, nem justificar o erro.
MARIA FELICIANA VELEMO


