A CINCO meses da eleição presidencial, os franceses temem que populistas possam capitalizar descontentamento e fazer com que o país seja a bola da vez, após a saída do Reino Unido da UE e a surpreendente vitória de Donald Trump.
Marine Le Pen, líder do partido populista de direita francês Frente Nacional (FN), postou no Twitter uma avalanche de felicitações a Donald Trump, mesmo antes de os resultados das eleições norte-americanas, para alfinetar os seus rivais franceses.
Após o referendo do “Brexit”, em que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia (UE), e a vitória do republicano Donald Trump, muitos se perguntam se a próxima grande decepção pode atingir a França, onde a eleição presidencial está a apenas cinco meses de distância e a popularidade de Le Pen vem crescendo fortemente há meses.
Ela não é a única que pode potencialmente ganhar terreno. Políticos como Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda, e o ex-presidente Nicolas Sarkozy, de centro-direita, estão tentam adaptar a sua mensagem política ao resultado da campanha norte-americana.
“É interessante ver como os políticos daqui estão a transformar a vitória de Donald Trump em argumentos favoráveis a si”, observa o analista Bruno Cautrès, do instituto Sciences Po, de Paris.
O impopular François Hollande não teve escrúpulos para traçar paralelos entre o humor do eleitorado nos Estados Unidos e na França. “Os franceses devem saber que Trump é o que a extrema-direita poderia vir a fazer amanhã na França”, disse Hollande, segundo o livro de confissões do Chefe de Estado francês escrito por dois jornalistas do “Le Monde” e lançado mês passado.
Mas o que Hollande vê como um sinal de alerta foi abraçado como uma oportunidade pela líder da FN. "A eleição de Trump é uma boa notícia para o nosso país”, disse Le Pen numa conferência de imprensa na quarta-feira, acrescentando ter esperança de que isso seja a sentença de morte para um acordo de livre-comércio entre os Estados Unidos e a Europa e contribua para melhorar as relações com a Rússia.
OUTROS NOMES

Nalguns aspectos, o cenário parece um regresso ao passado, quando o pai de Le Pen, Jean-Marie, obteve o segundo lugar na primeira volta das eleições presidenciais de 2002. Os ingredientes, então e agora, são semelhantes: descontentamento dos eleitores e uma ampla rejeição ao “status quo”.
O velho Le Pen foi derrotado de forma retumbante na segunda volta. No que mais parecia um referendo contra o extremismo, os eleitores de direita e de esquerda votaram maciçamente em Chirac. Hoje, as declarações da filha dele são muito menos contundentes – e a retórica anti-imigração e anti-europeia da FN repercute fortemente entre os eleitores enraivecidos.
Outros candidatos presidenciais estão a lançar a sua própria isca para um eleitorado descontente.
Candidato do Partido Socialista, Arnaud Montebourg, ex-ministro da Economia, é um ardente defensor de uma indústria “made in France” e quer reestruturar a UE, que ele compara a uma “empresa falida”.
O líder do Partido de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, que também quer balançar a eleição de Abril próximo, é ainda mais virulentamente anti-UE e promove manifestações contra a “globalização neoliberal”.
O senador de Vermont Bernie Sanders, que perdeu as primárias democratas para Hillary Clinton, “teria vencido contra Trump”, disse Mélenchon, que tem sido comparado ao democrata norte-americano.
Há também Emmanuel Macron, outro ex-ministro da Economia, que goza de seu “status” como um “quase forasteiro” do meio político, apesar de ter ainda de declarar a sua candidatura.
PRIMEIRO TESTE

O revés vindo dos EUA talvez possa ser sentido mais imediatamente pela centro-direita, que realiza primárias neste mês.
Sarkozy, que está atrás nas pesquisas, aposta numa reviravolta no estilo Trump e alerta para os perigos de se acreditar nas pesquisas. Ele, que apoiou Hillary durante a campanha norte-americana – apesar da sua retórica contra imigração e o islão ser cada vez mais de direita –, disse que, como o “Brexit”, a vitória de Trump “expressa um desejo de mudança”.
Ainda assim, Cautrès diz que “será difícil” para Sarkozy vender a sua mensagem de mudança, dada a sua condição de membro da classe política e às críticas às reformas fracassadas na sua gestão como presidente (2007-2012).
Pela sua parte, o principal candidato conservador, Alain Juppé, está a traçar conclusões muito diferentes sobre os resultados dos EUA, apesar da sua posição amplamente reconhecida como candidato do “establishment”.
Reconhecendo haver “duas Franças”, de vencedores e perdedores, o ex-primeiro-ministro aperfeiçoou as suas mensagens de campanha de moderação e reconciliação. “Digo 'não' para divisões e demagogia que colocam os franceses uns contra os outros”, afirmou Juppé diante dos seus adeptos, numa referência não tão velada a Trump.
O cientista político Etienne Schweisguth, do Sciences Po, diz que a vitória de Trump precisa ser colocada num contexto mais amplo. “Ela encaixa-SE na ampla rejeição no Ocidente à globalização e as suas consequências”, acredita. “Vimos isso nos Estados Unidos e estamos a ver na França com Marine Le Pen.”
Mas Cautrès avalia que os paralelos entre eleitores franceses e norte-americanos só vão até aí. O também analista do Sciences Po diz que muitos eleitores franceses estão ansiosos por uma mudança e que a insatisfação com o sistema democrático é profunda. Porém, afirma, não necessariamente a insatisfação dos eleitores será traduzida numa vitória de Le Pen.
Por um lado, ele crê que a centro-direita vai unir-ae em torno do vencedor das primárias e rejeitar qualquer aliança com a extrema-direita.
“Uma vitória Le Pen parece descartada nesta eleição”, concorda Schweisguth. “Para uma grande parte do eleitorado, o voto nela está fora de questão.”
DEUTSCHE WELLE


