A EXPRESSÃO “Como age o inimigo” evoca, nos que viveram no tempo do Presidente Samora Machel, (o tempo revolucionário, do socialismo), várias conotações (emoções) e múltiplos significados, entre os nostálgicos aos odiosos, por vários motivos, e que a história regista mas que o discurso político presente parece não pretender recordar e muito menos exprimi-lo em voz alta e publicamente. Não será isso uma acção desse inimigo interno?
Segundo o conceito desse tempo, o inimigo desdobrava-se em interno e externo e, enquanto o externo era claramente identificável mesmo fisicamente, o interno era tão complexo e até invisível porque era um Judas: vestia a mesma farda, comia no mesmo prato, falava a mesma linguagem do grupo (movimento, partido, etc.), identificava-se vivamente com o grupo, etc., mas era um inimigo cujo resultado final da sua acção era destrutivo.
O inimigo interno, ainda segundo o sentido desse tempo, podia ser um infiltrado que, por isso, estudava e imitava a forma de ser do seu alvo, penetrando-o até ao seu “intestino” e, uma vez ai instalado, e já tido como amigo, como parte do sistema, imperceptivelmente, destruía calma, silenciosa e impunemente o seu “amigo” sem este desconfiar e até com o beneplácito da vítima.
Esta táctica do inimigo sugere que este se faz amigo da sua vítima, elogia-a na negativa para que esta erre mais e, para não cair na desgraça da vítima, evita sugerir algo de positivo, esperando e desejando que a vítima tome decisões erradas e se destruir sem que ele (o inimigo) seja responsabilizado. E quando a vítima ficar destruída, o inimigo salta, desresponsabiliza-se e abandona-a para se apoiar ao seguinte dirigente substituo a ser tratado da mesma maneira.
O inimigo não critica, só elogia o seu dirigente (amigo) em tudo quanto este diz, faz e manda fazer para merecer mais confiança e tirar mais benefícios. O seu único esforço intelectual é saber antecipadamente a opinião e posição do seu dirigente para apoiá-lo e adulá-lo e enquanto não puder identificar a opinião do dirigente, não se pronuncia e justifica-se como um acto de disciplina interna. Este inimigo é um religioso, um adorador visível e audível do seu dirigente, antes de ele mesmo assumir seu lugar. O inimigo é muito astuto e perscruta intensamente à sua volta para descobrir um provável concorrente que possa merecer a confiança do seu chefe, para afastá-lo e eliminá-lo por intriga, boato, mentira, difamação e até por assassinato físico ou do carácter.
Nos dias que correm, de democracia multipartidária e de capitalismo, os sinais do inimigo interno são perceptíveis. Ele utiliza as mesmas tácticas destrutivas: não criticar o seu chefe ou instituição ou organização (governo, partido, igreja, etc.) por razões variadas, sendo a principal delas, a obtenção de benefícios materiais, a satisfação do seu complexo megalómano de poder, o sentimento de valor e prestígio pessoais. Servindo-se de todos os recursos de sedução disponíveis, o inimigo interno difama, pela via da imprensa (jornais, rádio e televisão) e das plataformas informáticas (msm, whatsapp, facebook, skype, twitter, etc.) os seus concorrentes e aqueles a quem julga que criticam o seu amigo/chefe e, pelos mesmos meios, elogia e venera o seu chefe, mantendo-o na sua mão, e abater os seus rivais através de textos que os denigrem e os afastem do seu protegido e encurralado chefe.
O resultado deste comportamento do subordinado/inimigo é nefasto para o chefe e sua organização. É que estes (chefe e organização) são pessoas humanas, localizados num determinado contexto e, por isso, estão sujeitos a falhas, daí a necessidade de uma constante crítica que nunca pode aparecer deste inimigo interno antes que o seu chefe seja substituído por um outro, também por adorar.
Mas o fenómeno de inimigo interno é muito mais complexo do que se pode imaginar para fazer uma crítica ligeira a este tipo de comportamento. É que, segundo a visão Pós-Modernidade, sendo o inimigo oposto a amigo, estes pólos são naturalmente separados mas iguais, ou seja, ocorrem simultaneamente. Isto sugere que ser amigo é ser inimigo, ou seja, pode-se ser inimigo na mesma altura e medida em que se deseje ser sinceramente amigo. Por exemplo, o facto de alguma organização ou pessoa ter-se mostrado superiormente muito prestável (inteligente, vencedora, bondosa, etc.), em algum momento, para alguém, este pode assumir aqueles atributos excepcionais de forma eterna e passar a adorá-la, admirando-lhe e obedecendo-lhe em tudo, sem que tenha que duvidar e questionar. Temos assim, entre eles, uma relação religiosa, em que o adorado se torna num espírito encarnado ante um crente ou discípulo total e eternamente dedicado, capaz de tudo, inclusive de morrer pela pessoa adorada. Uma simples voz de ordem/comando do chefe é mais que suficiente para que o discípulo a cumpra pontual e disciplinarmente sem se preocupar pelas causas, objectivos e efeitos da sua acção.
Alberto Lote Tcheco


