OS artistas das onze províncias do país começaram ontem a demonstrar as capacidades que ditaram a sua selecção para a fase final da IX edição do Festival Nacional de Cultura que ontem iniciou nas cidades da Beira e Dondo, em Sofala.
Num ambiente misto de anseio, expectativa e curiosidade, a cerimónia iniciou no campo do Clube Ferroviário da Beira com uma oração tradicional feita pelo Régulo Ngondo, na presença do Chefe do Estado, Filipe Nyusi, que abriu o festival.
Minutos depois seguiram-se as rezas efectuadas pelo Arcebispo da Beira, Dom Cláudio De La Zuana; representante da Comunidade Islâmica, Ossuman Agy; e pelo pastor da Igreja Peniel.
De uma forma geral, as intervenções dos clérigos estavam todas direccionadas para a necessidade de restauração da paz no país com vista ao alcance do bem-estar dos moçambicanos.
As mensagens também incidiram na necessidade de renovação da fé e do respeito à cultura, como condição para as pessoas perceberem as suas diferenças e viverem em harmonia dentro desta diversidade.
O palco estava montado em frente à tribuna de honra e o resto das bancadas do campo estava reservado aos artistas, convidados nacionais e estrangeiros e ao público. No relvado estavam cerca de 1500 artistas que exibiram o bailado “Aruângua”.
O desfile de apresentação das delegações começou, de forma intercalada, com as províncias de Inhambane, Manica, Zambézia, Niassa, Cabo Delgado e Sofala a entrarem pelo lado esquerdo da bancada sombra, e Gaza, Maputo Cidade, Maputo Província, Tete e Nampula a entrarem pela direita.
Era o prenúncio de uma tarde de festa que foi seguindo cada vez mais aplaudida, quer pela apresentação das delegações e suas principais manifestações culturais quer pela capacidade de responder às expectativas da plateia.
Depois da apresentação do programa do festival e dos aspectos que caracterizaram todo o processo organizacional, desde a fase local, distrital, provincial até à etapa final, por pela equipa envolvida, seguiu-se a vez do tão esperado bailado.
“Aruângua”: autêntica obra de arte
UMA verdadeira obra de arte, de merecer aplausos e, quiçá, uma gravação para a posteriridade na história da cidade da Beira, é como se pode descrever a exibição bailado “Aruângua”, em homenagem à capital provincial de Sofala.
Sob coordenação de Cândida Mata (directora artística da Companhia Nacional de Canto e Dança) e Maria Luísa Mugalela (coreógrafa e directora da Escola Nacional de Canto e Dança), o bailado tem cerca de 30 minutos e retrata as várias etapas da história da Beira, em particular, e do país, em geral, numa apresentação feita por cerca de 1500 bailarinos entre crianças, adolescentes, jovens e adultos.
A cena, em forma de dança e teatro, decorre nas margens do então rio Aruângua, actual Púngoè, e começa com o nascer do dia, podendo-se ouvir sons de animais de diversos animais, sobretudo domésticos. Depois, as comunidades iniciam as suas actividades domésticas nas suas residências. Segue-se a ida ao trabalho nos campos agrícolas, pastorícia, pesca e caça, tudo isto num período anterior à penetração árabe e colonial portuguesa, que são os outros momentos do bailado.
Os bailarinos demonstram ainda como é que se desenvolveram as primeiras trocas comerciais depois da chegada dos árabes até ao período da dominação colonial portuguesa e a Luta de Libertação Nacional.
Com sons e ritmos que descrevem cada um destes momentos, o bailado termina com o inicio da construção do Estado moçambicano, depois da proclamação da Independência Nacional, em 1975. A peça encerra com os bailarinos a criarem duas palavras, com as cores da Bandeira Nacional, nas línguas xi-sena e ndau, designadamente “FICANI” e “GUMANHI”, que em português significam “Boas-vindas”.
Esta obra começou a ser ensaiada há três meses, com a intervenção de pouco mais de vinte artistas profissionais que ensinaram a coreografia aos 1500 bailarinos voluntários que, por sinal, aceitaram o desafio de prestar, desta forma, tributo à cidade da Beira.
Antes do hino do festival, cuja letra foi escrita pelo conceituado escritor Mia Couto e a melodia produzida pelo músico Jorge Mamade, ambos desta cidade, “Aruângua” foi aplaudido por todos os presentes no campo do Ferroviário da Beira.
Abertas feiras de artesanato e gastronomia
DEPOIS da emoção do bailado “Aruângua”, seguiram-se intervenções do presidente do município da Beira, Daviz Simango, assim como da governadora provincial de Sofala, Maria Helena Taipo.
Estes deram boas-vindas aos milhares de participantes ao festival, apelaram a um maior envolvimento artístico por parte dos participantes, bem como à necessidade de se usar este evento como forma de promover a unidade nacional.
O ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, disse na ocasião que o festival deve ser visto como uma plataforma para exortar os cidadãos a trabalharem pela paz e pelo desenvolvimento, de todas as formas, incluindo através da cultura.
Depois do seu discurso oficial de abertura do festival, o Presidente da República, Filipe Nyusi, visitou as feiras de arte, artesanato e gastronomia, as primeiras manifestações a entrarem em cena.
Ambas feiras, que decorrem no átrio dos CFM e na Casa dos Bicos, respectivamente, juntam os representantes das onze províncias do país, sendo que cada uma é composta por quatro elementos.
Na feira de arte e artesanato, no átrio dos CFM, estão patentes diferentes tipos de obras de cestaria, bordado, escultura, cerâmica, pedra e de madeira fabricadas por escultores e artistas, artesãos de todas províncias do país.
Na Casa dos Bicos, na feira de gastronomia, estão expostos os principais e mais atractivos pratos de cada uma das províncias, bem como frutas e outros produtos alimentícios, segundo revelou Celeste Mahunguele, coordenadora desta mostra.
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estaurado mural “Vovô Xipangara”
UM dos principais momentos do primeiro dia da fase final da IX edição do Festival Nacional de Cultura foi a abertura do mural “Vovô Xipangara”, pintado na Casa de Cultura da Beira, em 1976, pelos artistas plásticos Malangatana e Shikani, já falecidos.
A placa de restauração do mural foi aberta pelo Chefe do Estado, Filipe Nyusi, que, ainda naquele local, inaugurou o estúdio de gravação musical, considerado o maior e mais moderno do país.
O “Notícias” apurou que a restauração do mural “Vovô Xipangara” foi iniciativa do Ministério da Cultura e Turismo, como o objectivo de imortalizar os trabalhos destes dois artistas nacionais que se destacaram na promoção das artes e cultura moçambicanas.
Dança e música tradicional começam hoje
DE uma forma paralela, os fazedores da música e dança tradicional começam hoje as suas apresentações nos diferentes palcos montados nas cidades da Beira e Dondo, respectivamente.
No campo do Ferroviário da Beira, por exemplo, vão desfilar grupos locais de música ligeira e das províncias de Gaza, Zambézia, Maputo, Cabo Delgado, Inhambane e Tete. No Dondo estarão Niassa, Maputo Cidade, Sofala e Manica.
Quanto à dança tradicional, os artistas de Maputo Cidade, Zambézia, Niassa e Inhambane vão actuar no campo da Munhava. Já Tete, Maputo Província e Niassa estarão na Manga, ambos espaços na cidade da Beira, enquanto o município do Dondo vai acolher os grupos de Cabo Delgado, Sofala, Gaza e Nampula.
ALCIDES TAMELE, na Beira


