O MÚSICO Roberto Chitsondzo apelou aos estudantes e docentes de arte para investirem na pesquisa e produção de partituras sobre o cancioneiro moçambicano de modo que qualquer músico do mundo o possa interpretar.
Falando ontem na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM), durante a aula inaugural do presente ano lectivo desta instituição de ensino superior, aquele compositor disse que foi nesse espírito que anexou, na sua biografia, partituras das composições do álbum “Kwiri”. Lançada em Dezembro passado, esta biografia tem um livro, escrito por Cremildo Bahule, e um disco.
“Não desperdicem a oportunidade que a minha geração não teve de estudar seriamente a música”, prosseguiu Roberto Chitsondzo, vocalista principal da banda Ghorwane, uma das mais importantes do país.
Na sua locução, cuja moderação foi de João Miguel, director da ECA, Chitsondzo contou a sua história e partilhou a experiência que acumulou durante os anos de percurso, até porque fez questão de frisar que essa foi a escola da sua geração.
Contou que em função desse contexto os músicos estavam aliados e faziam acções em conjunto de modo a aprenderem uns dos outros.
Voltou no tempo para resgatar as suas memórias sobre os primeiros passos na música. Disse que aprendeu a tocar com uma guitarra de lata pertencente ao empregado da casa vizinha em que passou a infância, em Xai-Xai, província de Gaza.
Bem-humorado, assumindo ignorância em relação a algumas terminologias técnicas e específicas da música no meio académico, o autor de “Kwiri” narrou que foi na igreja que uma das freiras lhe disse que ele era detentor de uma voz tenor.
No seu meio, a música que chegava mais fácil era a sul-africana e de nacionais como Simião Mazuze (Salimo Mohamed), Eusébio Johane Tamele (Zeburane), Arão Litsure, Hortêncio Langa. Nesse universo inclui-se a música revolucionária, que se pode encaixar no quadro das manifestações artísticas do exercício de construção do Homem novo, conduzido pela Frelimo.
Roberto Chitsondzo falou da sua passagem pela cidade de Quelimane, para onde teve de se mudar para se formar como professor de Educação Física, em 1979. É da geração 8 de Março.
O músico, que foi deputado da Assembleia da República pela bancada parlamentar da Frelimo, recordou a sua passagem pela cidade de Inhambane, onde leccionou na Escola Secundária Emília Daússe.
O vocalista e compositor contou que foi a convite de Pedro Langa que entrou para a banda Ghorwane e que a ambição do grupo era ser crítico, que buscava contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
“Quando completei 40 anos, organizei um concerto no Cine Teatro África com alguns músicos convidados e quis repeti-lo aos 50, mas não queria que fosse só mais um, não fiz e pensei no disco”, disse, a contextualizar o surgimento do seu álbum, “Kwiri”.
Entretanto, não queria lançar simplesmente um disco, daí ter aceito a proposta de Paulo Chibanga, director da Khuzula, para um livro, que agregou ao álbum.
“Tive de dizer tudo aquilo que eu sempre quis dizer e não tinha dito antes”, revelou Roberto Chitsondzo.
Defendeu a necessidade da formação para respeito social, agregado ao poder e às possibilidades que podem advir do conhecimento e do saber.
“Contem comigo como colega e estudem, estudem”, concluiu, prolongando a mensagem patente em “Dondza” – música do seu álbum.
Um dos momentos simbólicos da aula foi quando Chitsondzo convidou o seu colega de trabalho e amigo de longa data, Hortêncio Langa – que é docente na ECA – para interpretarem um número juntos.


